Contos, Fotos e Histórias do Marquês da Ajuda, Cacela e Sta Rita

domingo, maio 07, 2006

CONTO XVIII

Finalmente tínhamos chegado ao fim da explicação da morte, o capítulo ia-se encerrar com o último choro em presença do Venâncio Figueira estendido de braços e mãos sobre o peito no seu leito de morte.

Minha mãe chorava para explicar melhor como tinha morrido meu pai.
- Não adianta nada chorar - murmurou meu cunhado.

- Tanto que um patife daqueles a fez sofrer e ainda está a chorar por ele !
Eu não disse nada. Apeteceu-me esbofetear a boca donde saía a estrumeira das palavras dele. Como poderia ele entender suficientemente que minha mãe o amara a seu modo ? Temendo-o em cada gesto, em cada palavra, em cada pensamento. Em cada infidelidade que ele cometia. Apeteceu-me dizer-lhe:

- Covarde, infamemente covarde.
Que, em vivo, nunca teria a coragem de proferir tais palavras porque seria um genro abatido a tiro, a sangue frio.
Mas não disse nada. Apeteceu-me fechar aquele comércio de morte. Gritar a todos que meu pai não precisava deles para estar morto. Que lhe era indiferente que se devorassem uns aos outros com sorrisos de ódios.
Meu pai sempre soubera que os outros morriam e sempre resolveu esses problemas com a serenidade necessária a um acto natural. Sem sentimentos desnecessários. Sem desumanidades necessárias.
Sem representação teatral.
Sem ouvir.
Se ouvisse as palavras chorosas de minha mãe com relevos para as suas qualidades impossíveis teria dito:
- E as vezes que me injuriaste ?
Mas ali só existia a morte. A sua morte serena e tranquila. Repousante. Definitiva.
E o saque dos outros. Terrível. Luta acerada de abutres esfomeados. Provisório para eles e para os outros.

sábado, maio 06, 2006

CONTO XVII


Minha irmã mais velha chamava-se Rosália e tinha mais quatro anos do que eu. Já era uma senhora e tinha muitos pretendentes que meu pai trazia afastados devido aos seus maus modos.
- Qual será o rapaz que não se afasta da moça! - Exclamava minha mãe.
Luís tinha doze anos e Natal de Jesus ia nos dez. Ambos andavam na quarta classe pois o Luís era um bocado duro para aprender. A professora, senhora de muito respeito e educação que até punha pó de arroz cheiroso na cara, batia-lhe com a cabeça no quadro preto e ele deitava muito sangue pelo nariz. Fumava porque fazia bem, segundo opinião de pessoas mais velhas, e a minha mãe comprava-lhe onças de tabaco para o tratamento. Eu fumava às escondidas e só deitava sangue pelo nariz quando o meu pai me apanhava.
Minha irmã Clara começara há pouco a dar os primeiros passos. Tinha quinze meses, era muito gorda e mexia em tudo. Chamávamos-lhe o descuido mas a minha mãe não gostava nada dessa alcunha.
Meu pai era para toda a gente o Senhor Venâncio e minha mãe a senhora Clarisse mas para os documentos oficiais meus pais eram também Alves Figueira e minha mãe Ramos Figueira. Figueira era o apelido de meu pai que vinha desde o tempo das antiguidades como diziam os velhos que sempre tinham conhecido os Figueiras. Isso era motivo de orgulho para toda a família.
Morávamos na Quinta dos Lobos Velhos, mas o meu pai possuía ainda a Quinta da Cerro Alto, a da Figueiral e a das Andorinhas. E outras courelas herdadas por minha mãe e às quais ele não dava importância porque eram pequenas e tinham vindo do meu avô materno, lavrador de meia tigela e pessoa de muitos reumatismos sem esperança de cura, que morrera de constipação estival.Bebia muito para estar distraído.
O que meu pai possuía e o fazia rico, viera tudo de meu avô Alberto Figueira, o das barbas do retrato, que andava a maior parte do dia e às vezes, à noite comigo, nos sonhos e tudo, por que eu gostava muito dele e tinha o mesmo nome acrescido do apelido Ramos, por parte de minha mãe.
- Uma sacanice de meu cunhado - dizia meu pai que, no Registo Civil indicara apenas o nome de meu avô para mim.
- E o apelido da mãe? - Perguntara meu tio e padrinho a querer sobrecarregar-me de nomes.
Assim, enquanto eu me chamava Alberto Ramos os meus irmãos eram todos Ramos Figueira o que dava a impressão, à primeira vista, que não éramos da mesma família. Ser duma família qualquer cria sempre responsabilidades. No Liceu todos os professores e até os meus colegas me chamavam Ramos o que me causava um certo desgosto. Sendo filho do senhor Figueira e sendo por isso um Figueira da melhor madeira, um nome de tantas tradições, estava a ser perdido em mim e, como depois de minha irmã era eu o mais velho, estava a ser uma espécie de morgado com o nome trocado e perdia uma tradição tão histórica assim do pé para a mão. Diziam até que houvera nos meus antepassados um homem tão forte que matara à paulada uma jibóia de proporções gigantescas, como convém a actos de tanta heroicidade.
Durante muito tempo andei com a preocupação de fazer qualquer coisa que ainda ninguém tivesse feito para que caíssem sobre mim as atenções dos populares e a admiração dos restantes elementos da família. Queria ser herdeiro de qualquer coisa. Mas não encontrei nada que fosse capaz de me elevar a uma posição de relevo. A não ser as corridas de burro com as inevitáveis quedas que ocultava para defesa do meu prestigio e do bom nome de uma família de cavaleiros apeados. E apeados por não me constar que tivesse havido na família cavaleiros de cavalos das lendas que andassem em justas e torneios defendendo damas agravadas. É natural que não houvesse damas agravadas que necessitassem da interferência dos Figueiras. Também é natural que tenha havido Figueiras a desagravarem damas mas nada havia em casa de meus pais que lhes fizesse referência.
O burro, esse sim, foi sempre o animal preferido para as cavalgadas de meu avô e de meu bisavô. Só meu pai, por desentendimentos antigos com esse nobre animal se deslocava, habitualmente, em bicicleta dumas quintas para outras tendo quebrado, por um lado, uma tradição de família e reforçando-a pelos outros.
O meu avô nunca casara. Talvez por falta de disposição. Ou de vocação. Ou por outras razões só dele e não explicadas enquanto vivo. Ele não dava explicações dos seus actos. Bastavam-lhe só os actos que eram, quanto a ele, a melhor explicação. Vivia com a senhora Clarimunda na Quinta dos Lobos Velhos, e tinha minha avó na quinta do Cerro Alto que ficava a seis quilómetros de distância pois ela tinha um feitio muito independente, senhora do seu nariz, apesar de ser analfabeta, e fazia o que lhe dava na real gana. Viera muito nova para criada da casa e devia ter sido muito bonita para seduzir meu avô que era pessoa de bom gosto e de muito apetite que logo nela fez um filho, mais tarde meu pai e herdeiro universal de meu avô, que nunca deu nenhum filho à senhora Clarimunda embora gostasse muito dela e fizesse todos os possíveis.
Quando morreu deixou, à senhora Clarimunda o usufruto da Quinta das Andorinhas o que foi sempre uma espinha atravessada na goela de meu pai. Que só a tirou quando ela morreu. Dela, em minha casa não se podia falar, porque era proibido em último grau, e o meu pai, quando falava era sempre com bastantes arrelias na voz e muitas pragas à mistura para ajudar. Eu gostava dela pois também o meu avô gostara e os sentimentos dele estavam um pouco em mim. Meu avô sabia as suas razões. Os bons motivos que o levaram a viver, uma vida inteira com a senhora Clarimunda e não com a minha avó. Isso causava-me uma certa estranheza só dissipada quando mais tarde me explicaram a verdade que, em casa, toda a gente cultivava, muito religiosamente, no segredo. Coisas que as crianças nunca entendem bem para que os adultos possam ser umas pessoas respeitáveis.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

CONTO XVI





Tinha pssado um mês no calendário quando o marquês voltou a encontrar o pai:
Minha mãe viu-me a brincar com Leão, o cão de guarda da quinta, muito satisfeito da minha vida e julgou que ainda não tivesse falado com o meu pai sobre o meu fracasso dos estudos.
- Já falaste com o teu pai?
- Sim, mamã.
- E o que disse ele?
- O costume.
- Não te bateu?
- Ainda não. E se me bater fujo de casa.
- Tem juízo, rapaz. E o que fará um moço destes fora de casa como um vadio sem família?
- Ora! Vou guardar gado ou servir ou qualquer coisa.
- Depois sou eu que tenho de aturar o teu pai.
- Fique descansada que me encarregarei de resolver os problemas com ele.
- Isso é muito bom de dizer, lá isso é. Mas eu é que tenho de o ouvir. A dizer-me que sou a culpada de tudo. O que eu sofro com isto!
Minha mãe era especialista em sofrer por ela e pelos filhos e na inocência da nossa idade achávamos piada que ela sofresse tanto como dizia. E ainda tinha tempo para cantar e para rir. A mim não me interessavam as culpas que ela tivesse ou que meu pai dissesse. Quando ele me batia, ou se zangava comigo, com o seu ar feroz, assustador, como se fosse um carrasco de crianças a vingar-se de ser um homem, minha mãe nunca intercedia a meu favor e eu acabava por me encontrar tão abandonado como barco naufragado em mar alto sem velas e sem remos.
- Não tem juízo nenhum este moço! - Exclamava ela com as mãos, ambas postas na cabeça, quase no fim da testa que era o local das suas dores.
Se aos catorze anos tivesse o juízo das dores de cabeça lá ia levada pelo tempo a vontade grande de brincar.
Quem tinha perdido o ano era eu e ninguém tivera culpas disso. Nem os professores que tinham procurado que me interessasse pela matéria, nem eu porque não tivera interesse nisso. Não me interessava estudar. O meu avô também nunca andara a estudar e viveu durante setenta anos. Sabia ler e escrever e diziam até que era uma pessoa muito entendida em leituras. Que até fazia versos para que os outros cantassem.
Cantar no tempo do meu avô ajudava a esquecer. Cantar seria no meu tempo uma boa profissão, muito bem paga e as pessoas ouviriam cantar sem estado de espírito, sem alegria, sem nostalgias nenhumas, sem esperanças nenhumas. Só porque tinham pago o bilhete para ouvir. Seria uma espécie de fabricação de alegrias ouvidas com tristezas e penas.
Não me interessava estudar. Tanto me fazia ter perdido o ano como não. Não diria nada a meu pai pois a vontade dele seria, certamente, que eu continuasse. Para que discutir com ele o que depois iria ser o que ele quisesse sem apelo nem agravo? E eu continuaria até que meu pai visse com os próprios olhos ser desnecessária tal teimosia. Com catorze anos não podia ser responsável por nada. E iria fazer os possíveis para que toda a vida me considerassem da mesma maneira para me ser mais fácil viver. As pessoas que eu conheço andam muito convencidas de que são importantes para que o mundo ande certo mas quando morrem o mundo continua a andar e ninguém dá pela sua falta. Durante uns tempos a família ainda fala deles mas depois esquecem-nos. Só no dia de finados é que vão ao cemitério com umas caras muito adequadas à ida para demonstrarem aos vivos que não se esqueceram dos mortos.
Era isso que os livros ensinavam e as pessoas decoravam para repetirem em datas e ocasiões adequadas.
No dia de finados choravam os mortos, das tantas às tantas, na hora determinada para os prantos e lutos renovados.
No Carnaval brincavam na rua e atiravam papelinhos coloridos uns aos outros e sacos com cinza. Eu julgava que era farinha e só vi que não era quando apanhei com um na testa que se partiu e quase me cegava. Enquanto todos acharam muito engraçado, muito certeira a pontaria, muito natural a minha indignação. Pulhas! A vontade que me deu nesse momento foi ser capaz das maiores façanhas, daquelas que os guerreiros faziam de desbaratar um campo de inimigos à espadeirada sem a mais pequena dificuldade. Mas era uma criança e não tive coragem de ter a força desses gigantes que vinham no livro de história. Se eles sabiam que uma criança não se podia defender a obrigação deles era respeitá-la. Grandes canalhas!
No Natal as pessoas festejavam, por ser velho costume, com a família, o nascimento do menino Jesus e, por causa dele nascer todos os anos, havia até uma certa compreensão de uns para os outros. O meu pai nesse dia era um pouco diferente e, se não fazia bem a ninguém, também não impedia que os outros o fizessem. Eu achava que devia ser Natal durante todos os dias do ano por que todos os dias nasciam meninos pobres que não tinham culpas nenhumas e que muitos deles estariam condenados a morrer, um dia, crucificados na vida sem um lenho ao menos que lhe servisse de cruz.
Estudar para aprender desumanidades ou para ter boas notas não me interessava mesmo nada. Se antes dissera ao meu pai que preferia estudar em lugar de trabalhar no campo agora a minha opinião era um pouco diferente. Já preferia deixar a minha sorte ligada àquelas gentes rudes um dia e outro presas à condição de escravos, mas que eram verdadeiras. Que não riam nem choravam por terem aprendido nos livros. Fui para a sala onde estava o meu avô que não me disse nada com os seus lábios de retrato. Apenas olhou para mim com os seus olhos de me seguirem sempre para qualquer lado da sala para onde eu fosse. Sem uma palavra de recriminação por eu ter perdido o ano. Ele compreendia perfeitamente os problemas porque também a si lhe interessara mais a vida do que os estudos. É certo que no seu tempo não se estudava tanto mas, pelos vistos, nem era preciso estudar para que as pessoas fossem melhores umas para as outras. Isso provava-me que estudar só servia para tornar as pessoas ainda piores embora para o meu pai fosse importante a consideração dos canudos. Meu avô olhava para mim com os seus olhos de não ser compreendido, com os seus olhos de olhar definitivamente e sempre da mesma maneira para todos, excepto para mim. eu pai regressou ao pôr-do-sol. - Explica-me lá como reprovaste - disse-me
Trazia na mão uma vara de oliveira da grossura do dedo polegar. Dedo grosso e sapudo.
Qualquer que fosse a minha desculpa de nada serviria pois a vara era a prova evidente da sua determinação. Pensei em fugir e tive medo que as pernas me atraiçoassem as ideias.
- Então? - Perguntou com os seus ares inquiridores vizinhos da vingança justiceira dele.
Encolhi os ombros. Até metê-los dentro do mesmo corpo onde estava guardado o medo.
A vara, nas mãos de meu pai, começava a bailar a insatisfação da inércia. - Se eu fosse órfão! - Pensei.
A vara caiu-me sobre as costas gravando na pele as raízes da dor rasgando a carne, com picadas de calor, a arder cada vez mais. Depois, entrei, oficialmente, de férias.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

CONTO XV

A Dina viria a casar em Olhão, num casamento a que obrigaram o marquês a ir, para ficar na fotografia e toda a vida comentarem o meu olhar triste, de ver a Dina com outro . O homem dela !. Na verdade há muito que o marqês deixara de amá-la, o que aconteceu quando a almofada passou a ter o aroma só de almofada, corada no ribeiro da Fonte Santa, e do ferro de engomar aquecido no carvão. Foi nesta memória que o pai do marquês justificava o seu:

O meu pai estava aborrecido comigo só porque reprovara no Liceu. Porque não era capaz de repetir as lições dos livros sensaborões e pesados para apanhar notas que me guindassem na sua consideração ou me levassem ao quadro de honra para depois se gabar aos amigos :
- O meu filho é um granade aluno !
Dessa não se gabava ele. Se, estudar, conhecer as pessoas, os seus defeitos encantadores, gostar das pessoas e das coisas, gostar do sol, gostar de brincar até esquecer tudo eu poderia garantir-lhe que ele seria o mais honroso pai de Venda Nova. Gabar-se da minha escravidão, isso nunca . Ele tinha razões. As suas razões. Mas eu tinha as minhas e essas é que seriam realmente importantes para mim, conforme ficariam afirmadas por um passado vergonha dele e aceitação minha excluidas todas as filosofias.
Tinha catorze anos e essa idade era mais importante que todos os conceitos velhos de meu pai, com quem não estava de acordo. Embora ele os tentasse impôr com a fúria das suas crenças.
Era injusto comigo. Era injusto com toda a gente que precisava dele, especialmente os trabalhadores. Precisava mais deles do que julgava. Trinta anos depois lamentar-se-ia que não tinha quem quisesse trabalhar no campo e que as terras não dariam rendimentos mas canseiras e sofrimentos só porque o progresso se impusera com as suas garras a estrangular as antiguidades transmitidas de pais a filhos.
No tempo do meu avô as coisas eram sem diferentes. Havia sempre quem trabalhasse e as pessoas faziam-no com gosto embora os trabalhos do campo já fossem duros.Mas ele deixava os trabalhadores à vontade para que cada um se julgasse um pouco dono daquilo que, afinal, não lhes pertencia nem nunca lhes pertenceria.
Segundo contavam os trabalhadores mais antigos meu avô costumava dormir quando os trabalhos se acumulavam. Os trabalhadores resolviam à sua maneira o que mais convinha e, quando acordava, metade dos problemas já estavam resolvidos e bem por que as pessoas entregues a si próprias se tornavam mais conscientes. Muito mais do que quando eram compelidos a fazer as suas obrigações, sem que as compreendessem, com a ameaça de chicotes silvando torturas no pensamento ou despedimentos para atirar a família à miséria mesquinha de morrerem inativos.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Dina

A Dina era de Olhão, das açoteias, esteiras e figos a secarem. Linda como nenhuma outra mulher de 18 anos, pronta e comprometida ao casamento. Era miúdo quando a paixão tocou o marquês empoleirado no cimo de uma oliveira. Imaginava-se Tarzan, Dina a Jane. Deslizou pela corda e quando tocou o chão a costa da mão esquerda, em dor, apresentava um corte na pele queimada até ao nervo. A paixão era maior acompanhada do aroma da natureza, da água fresca deslizando suavemente pelos regos da terra e dos frutos silvestres, das romãs fendidas, das malvas lá no fundo da horta muito perto dos marmeleiros. Na noite agitada o marquês amou, correndo o sonho com uma lâmina de corte fino, de água pura entre valados, de candeia que alumia o coração apaixonado. Depois a Dina foi embora, deixando o seu perfume na almofada que o marquês abraçaria todas as noites, até que a almofada cheirou apenas a almofada e a paixão se evaporou.

domingo, janeiro 01, 2006

CONTO XIV


Simão Carolo tinha a taberna em frente da Farmácia. Era um optimista casado com Lúcia Zarolha a do lugar de frutas e hortaliças na praça de Venda Nova e muita vaidade por ter os melhores nabos da região, trazidos directamente do lavrador. Que, neste caso, tratava-se do meu pai, o senhor Venâncio, abastecedor também de outras senhoras da terra. E dizia-se muita coisa sendo minha mãe a que mais falava.
A Zarolha tinha um olho de vidro e, quando olhava para alguém, fixava o olhar tão insistentemente, com aquele brilho de cristal derretido que o Ratinho se apaixonou por ela quando regressou de Espanha e lá fora molhar a goela com meio litro de vinho numa garrafa que só levava três decilitros.
Amor traiçoeiro e não correspondido desde aquele dia em que ali entrou pela primeira vez.
- Meio litro - dissera.
- Do tinto ou branco ? - perguntara ela.
E o olhar cravado nos sentidos dele.
- Tinto.
Habitualmente bebia branco. Mas as palavras dela pareciam aconselhar-lhe o tinto.
Ela a olhar para ele sem desviar os olhos, sem fechar o olho que restava, agressiva e prometedoramente metido na alma do Ratinho a roubar-lhe o sossego do seu instinto e a liberdade dos pensamentos vagabundos.
Desde esse dia era na taberna que estava sempre. Esperando ouvir dela uma palavra que o incitasse a uma declaração do seu amor inflamado. Mas nada sucedeu se não aquele olhar a continuar caido sobre as ideias do Ratinho.
O Simão sabia da paixão dele, pela mulher, mas, como era inofensivo e deixava ficar na taberna o dinheiro que tinha, nunca se impôs. Nem sequer se assustou ao ponto de pedir desforço de tal paixão para conserto da sua honra aos olhos dos olhos.
Quando o Ratinho deixou ali o último tostão da herança o Simão aproveitou
-se dele para lhe trazer a água do poço e, por esmola segundo dizia, dava-lhe uma sopa e um copo de vinho do pior.
- Temos de ajudar estes desgraçados. - dizia a torto e a direito para fazer valer a sua caridade.
E para que dissessem que cumpria as suas obrigações como político atento, pois era cabo de ordens bastante considerado e, segundo opinião de alguns, informador do regedor, o Senhor Ferramacho, que por sua vez também era muito considerado e informador de quem estava por cima dele, que também informava quem estava por cima de todos.
As pessoas diziam que a politica era assim uma coisa de não se saber bem e que o senhor prior também era um grande politico. Ele fazia que não era nada com importância e continuava a sua ladainha em latim e quando as pessoas morriam todos ficavam muito contentes com a encomendação do morto.
- São umas santas palavras que ele diz ! - Comentavam as pessoas. - Nunca houve morto que voltasse ! Aquilo é que é encomendação bem feita.
Ao lado da taberna, numa casa baixinha caiada de branco com frisos vermelhos, morava dona Branca Farroba casada segundo todas as boas tradições com o Belmiro Farroba, industrial de cordoaria artesanal doméstica com saidas para o exterior, que tinha o lábio superior rachado junto à prega feita pelo nariz e descendo até aos dentes. Desse matrimónio existiam cinco filhos, cinco lindas crianças descalças, que o sol lambia abundantemente. Nunca constou que estivessem doentes, demonstração que a natureza estava certa naquelas vidas tão incertas.
- Quando tiverem alguma coisa é logo para morrer - diziam as pessoas experientes.
O certo é que eles não morreram e que eu iria encontrá-los mais tarde com uma situação de causar inveja a muita gente.
- Sou artista de circo - dissera-me um quando o encontrara numa terra das suas peregrinações.
- O que fazes ?
- Forças combinadas.
- Com quem ?
- Com o meu irmão.
Foi uma alegria para mim tê-lo encontrado.
Deu-me alegria a confiança dele na vida. As grandes lições estão, afinal, naqueles que não estudaram.
Dona Branca Farroba e o marido eram excessivamente morenos, quase torrados, semelhando mestiçagem, havendo até muita gente que dizia que eles eram assim escuros porque nunca se lavaram. Mas isso nunca foi devidamente comprovado.
Como os filhos fossem de tez branca, que só o sol mais tarde tostaria, diziam que cada um era filho de seu pai, havendo portanto um pai legal e cinco ilegais. O que também nunca foi comprovado para bem das honestidades, da moral e das próprias crianças que se veriam a braços, cada uma, com vários pais.
Vivia o casal, não obstante o que se dizia, na mais santa concórdia e nunca houve quem melhor se desse em Venda Nova ou arredores. Se Dona Branca não era rica e de altas virtudes hereditárias, para o marido era pelo menos a mais virtuosa da terra. Nunca ele diria a ninguém, como tantos, quando falasse das sãs e honestas senhoras :
- Esta eterna dúvida !
Belmiro Farroba industrial de cordas feitas à mão e um dos principais consumidores de tinto não duvidaria nunca de sua esposa.
- Tinhamos de o trazer às costas para casa - dissera-me o artista de forças combinadas.- O gajo nem podia andar.
- E não custava ?
- Punheta, se custava ? E às vezes o gajo lembrava-se de se ir embebedar para longe de casa. Ia eu e o meu irmão. Púnhamos o tipo no meio. O gajo tinha a mania de cair para um lado, era para o meu lado, eu dava-lhe um encontrão " Eh pá aguenta-te nas curvas " e lá conseguiamos trazer o bicho para casa.
Dona Branca tinha uns cabelos muito pretos e lisos, com brilhos estranhos que lhe davam um aspecto de originalidade nunca conseguida embora imitada por muita senhora. Estavam divididos ao centro e caidos sobre os ombros, metade para a frente e outra metade para trás, sempre soltos e ondulando no seu andar de rainha. Tinha olhos pretos e expressivos, muito abertos, para que o sol e o mundo neles se reflectissem, sempre a olhar para a frente como se quisesse apanhar com eles o futuro cravado no horizonte longinquo e a desconhecerem, por ínfimas, as coisas que perto se achavam. O lábio inferior, grosso , enorme, original, virava-se para baixo como se estivesse derramado a escorrer contornos infindáveis, estendendo-se preguiçosamente até quase alcançar o queixo pequenino o que lhe dava um ar de exotismos diversos,estranhos e risíveis. Com um sorriso trocista de zombar de tudo o que era mesquinho, fútil, pequeno. O que era dos outros.
Era pobre como ninguém. Sem medo de ser mais pobre ainda. Mas tinha umas maneiras tão refinadas, tão aristocráticas, tão soberanamente altaneiras que, em Venda Nova, quase ninguém as entendia. Usava uns trajes muito usados e até, segundo algumas opiniões, um pouco arriscados para a época que se vivia, pois as pessoas demasiadamente agarradas à tradição recusavam-se, teimosamente, a aceitar o progresso imposto por Dona Branca com sua blusa leve, vaporosa de farrapos coloridos, que lhe mostrava bocados fartos de pele acobreada dos braços, dos ombros, das costas e do seio, desabotoando-a ainda para mostrar melhor a linha divisória dos peitos bamboleantes com o seu caminhar airoso de chinelas velhas arrastadas nos seus pés pequeninos e morenos com perfumes de poeiras.
Quando passava na rua Direita, a única de Venda Nova, por sinal bem tortuosa, começando por uma curva apertada e acabando noutra, parecia uma rainha saida de seu palácio rebolando as ancas fartas num bailado fofo de carnes doces e quentes com aromas de instintos, com os peitos rebeldes a quererem sair pela coçada blusa, sempre a oscilarem dum lado para o outro e de cima para baixo.
Quando alguém perguntava a Dona Branca se os filhos eram todos do mesmo pai ela respondia a rir, mostrando cara de muito zangada :
- Mas que exagero ! Sempre me fazem cada pergunta ! E que importância tem isso para vocês ? Ou para as crianças ? O que interessa é que os meus filhos nasceram , como nascem todas as crianças e que são saudáveis. Não é isso o importante para elas e para mim que sou mãe ?
As pessoas não diziam nada.
Ela era, para todos, fácil. Compreensiva e acessível. Partilhada sem zaragatas. Mantendo sempre o seu ar distinto e dificil. E ausente.
Belmiro Farroba andava sempre com um molho de pita debaixo do braço, fazendo corda enquanto palmilhava a Rua Direita dum lado para o outro, com pequenos descansos na taberna do Simão para molhar a goela. Acreditava na fidelidade da mulher e alto e bom som clamava as suas crenças afirmando que casara com uma verdadeira senhora.
- Ela não liga importância a isso - dizia o Farroba torcendo e encaneando a pita com a vaidade de ser um especialista em trabalhos de corda e um industrial honesto e cumpridor.
Entre dois copos continuava a explicar:
- Seria a mulher mais virtuosa de Venda Nova se não lhe dessem aqueles malditos ataques. Mas não me quer ao pé de si para não me fazer mal. Coitada ! Arranhava-me sempre como se fosse uma gata bravia. É da doença. Quando ela está assim nem vou para casa.
A corda nas suas mãos dançava um bailado rodopiando em convulsões estranhas para cair aos seus pés inanimada.
- A gente vai-se habituando a tudo - concluia com a sua filosofia de aceitação das realidades para que os sonhos não voassem desnecessáriamente. Para que ficassem presos nas cordas e nos seus pensamentos.
Em certas ocasiões tapava-se Dona Branca com um velho xaile espanhol, de cores desbotadas, quase até ao nariz.
- Para não criar desejos nos homens porque eles são todos uns pecadores e a carne é uma tentação - dizia ela.
Andava menstruada.
Depois, como uma flor aberta para o sol, aparecia novamente na rua com os seus trajes leves mostrando as carnes para as tentações de todos os pecados nascendo e ficando nos homens de Venda Nova que tinham o terrível hábito de pecar.
O Farroba gabava-se que não havia ninguém na Vila nem fora dela que fosse mais completo do que ele. Que cortava as folhas das piteiras e as ripava com todos os cuidados e preceitos .Que fazia as melhores cordas da região.
Meu pai comentava :
- Uma merda de cordas !

quarta-feira, dezembro 14, 2005

CONTO XIII

Vila Nova de Cacela era Venda Nova, rua única por onde passava o progresso, tendo o Center Business Distrit uma localização e designação precisa as quatro estradas.
Havia em Venda Nova cinco doutores: três de medicina que ajudavam, o melhor que podiam, os doentes a morrer, um de farmácia que tinha na parede um copo de pé alto e uma cobra enroscada e um de leis que fazia zaragatas e depois acabava com elas, o mais legalmente possível, em tribunal.
O doutor Pardelhas era médico, velho, não trabalhava, andava sempre com frio e uma gabardina e não tomava medicamentos para morrer de velhice. Vivia com uma governante, por que nunca casara. As pessoas diziam que dormia com ela por uma questão de hábito antigo.
O doutor Neves era médico do partido, cobrava quotas mensais, pontualmente, há muitos anos e ficava aborrecido quando alguém aparecia doente. Tinha vindo de fora e durante muitos anos manteve-se solteiro e com umas mãos muito brancas e lavadas por fora pois, como tinha medo dos contágios, lavava-as sempre antes e depois de observar os doentes. Era muito mariola, segundo diziam, porque quando apalpava a barriga das senhoras punha-se com os seus olhos gulosos e esfomeados a olhar para as partes mais íntimas e de serviço caseiro. As senhoras sentiam que as mãos dele deixavam de ser de médico do partido para se tornarem sensuais, preguiçosas e lentas, descaradas, nos movimentos com que procurava despertar nelas ideias pecaminosas. Mas as senhoras como eram decentes e até se tinham lavado por baixo não diziam nada e evitavam ir à consu1ta com desculpas de que ele não acertava nas doenças e queria acertar noutros sítios muito mais perigosos. Foi perdendo, a pouco e pouco, a clientela até ficar reduzido ao fraco ordenado que lhe vinha do exercicio do partido.
Porém, uma cliente ficou para sempre.
Chamava-se ela Felismina Amendoeira Silvestre e vivia num palacete que tinha umas ameias pintadas de vermelho com sua mãe Dona Violante Fagundes Silvestre, viuva de um rico armador que começara a sua vida de pé descalço e com um pequenino barco de pesca, que também servia para fazer contrabando, para com muita honestidade se tornar em rei do carapau. Dona Felismina era tão rica como feia e certamente ficaria para tia se tivesse irmãos se não fossem tantas as dificuldades do doutor Neves. Foi a sua tábua de salvação no naufrágio da vida.
Após o casamento e por vontade da sogra, senhora que tinha uma vontade férrea, mudou-se para Tavira, onde todos viviam, como Deus com os anjos, dos rendimentos, longe das más linguas de Venda Nova que clamavam ter sido um casamento por interesse. Só vinham passar férias ao palacete que ía com os anos diminuindo até ser uma casa vulgar com uma cor vermelha de muito mau gosto. Embora tivesse um tanque com peixinhos vermelhos que o doutor Neves tratava melhor do que aos doentes.
Um verão o doutor Neves apareceu em Venda Nova com um carro novo onde estreara gloriosamente a sua carta de condutor e o Porfirio, motorista das camionetas de carreira, até lhe chamou colega, o que deu origem a um incidente que terminou em tribunal. A posição do Porfirio foi brilhantemente defendida pelo doutor Sargaço ao provar que o seu constituinte tinha agido de boa fé e muito angelicamente ao tratar o médico, pessoa muito respeitável, clinico muito distinto, sumidade, luminar e etc., por colega apenas se referia à circunstância de ambos serem motoristas. Que o Porfírio até descera no seu próprio conceito pois era um dos melhores motoristas, um profissional honesto, um honrado chefe de família e que estava profundamente arrependido de ter usado tal palavra.
Toda a gente ficou encantada com a absolvição de Porfírio e à boca pequena ouviam-se frases como estas:
- Então, Porfírio, como vai o teu colega?
- A mim não me leva ele na camioneta !
- A sorte dele foi ter casado. Ainda morria à fome antes dos seus doentes!
Eu era criança e julgava que era maledicência. Quando cresci vi que era mesmo verdade.
O doutor Campos era médico em Tavira mas vinha três vezes por semana a Venda Nova onde tinha muitos doentes. Fazia as visitas domiciliárias de trem, com uma manta a tapar-lhe os joelhos por causa do frio. Andava sempre a rir e dizia-se que era muito rico. Muito bondoso, até fazia descontos de dez por cento o que muita gente, reconhecida, agradecia, dando-lhe presentes por ocasião das festas.
Quando eu estava doente era ele quem me tratava e,
não me obrigando a tomar os medicamentos, tomava-os todos até os que eram amargos.
Era muito bom médico, segundo diziam, e só morriam os que não escapavam.
A farmácia Alegre ficava no centro de Venda Nova num edificio de um único piso e servia de habitação do doutor Isac Abrão Alegre que era proprietário e director técnico conforme estava numa tabuleta.
Tinha um pátio ladrilhado que dava para a rua principal ladeado por um gradeamento pintado de verde e junto à janela que dava para a sala onde estava a farmácia havia uma palmeira a cuja sombra se sentava, numa preguiceira o doutor Abrão.
Pessoa cheia de carne, como os porcos gordos de meu pai antes da matança, andava sempre suando muito no verão e tinha quase setenta anos. Estava casado, em segundas núpcias com Dona Felcidade Alegre, senhora dos seus trinta anos de idade, muito bonita, cheirosa e pintada.
A porta de entrada para a habitação e para a farmácia era a mesma e tinha sempre uma rede de pesca para evitar que as moscas entrassem e saissem. Em Venda Nova havia moscas e pessoas suficientes - uma pessoa para várias moscas, e muitas moscas em cada pessoa - que olhassem para elas e para as outras coisas que ainda interessavam menos do que as moscas e que muito as preocupava. A tal ponto que abandonavam tudo o que estavam a fazer para presenciarem. Para comentarem depois. A farmácia estava sempre aberta até à meia noite para se poder aviar as receitas. A porta dava para um corredor que tinha vasos de flores dum lado e do outro e o corredor chegava até à porta da casa de jantar. Do lado direito ficava a porta para a farmácia e que comunicava com o laboratório por um arco no qual estava inscrita essa indicação. Era onde o doutor Abrão, de bata branca e com ares muito so1enes e atentos, misturava os pós e preparava os medicamentos que constavam nas receitas com umas letras tão mal feitas que só ele entendia por que tinha estudado muito para saber ler aquelas caligrafias de levar réguadas se fossem de meninos que andassem na escola.
Do lado esquerdo era a salinha onde tinha um rádio Telefunken em cima duma mesinha de verga, ligado a uma bateria, com cadeiras também de vergas espalhadas pela sala, com almofadas coloridas em profusão.
Quando havia dasafios internacionais de futebol as pessoas mais gradas da terra entravam para a sala, as mais ricas ou categorizadas ficavam sentadas, outras ficavam da pé e íam ocupando o corredor em estratificaçao social até à rua. Como o doutor Abrão era muito patriota abria a janela que dava para o pátio para que toda a gente pudesse ouvir o relato do desafio. Um Portugal-Espanha era motivo para demonstração insofismável de lusitanismo e embora se perdesse sempre e por diferença muito volumosa toda a gente saía dali com a impressão que fora para nós uma retumbante vitória moral pois o doutor Abrão, com a autoridade que lhe dava ter um rádio Telefunken, fazia uma alocução que deixava todos satisfeitos e vingados falando de Aljubarrota, da ala dos namorados, do Condestável que antes da peleja rezara a pedir a vitória. Falava, também, da Restauração, em 1640, e da expulsão justa dos invasores.
Dona Felicidade Alegre era loura cor de seara e tinha o cabelo cortado à garçon, moda muito usada nessa época. Andava sempre muito pintada a toda a gente a censurava, pelas costas. Era uma senhora que pintava os lábios com um baton romã vermelho.
Falavam de tudo, falavam da Dona Felicidade que era uma senhora e das muitas paixöes incendiárias dos homens por ela.
O que é certo é que nunca em dias da minha vida vi incêndios ou bombeiros em prevenção.
Tudo corria o mais normal possível para Venda Nova.
As camionetas cumpriam as carreiras entre Faro e Vila Real dentro das horários debaixo da superior condução do Senhor Porfírio e do cobrador Chumbado Coelho.
Um motorista tinha tanta importância como um doutor desclassificado e a chegada da camioneta a Venda Nova era um acto tão importante a revestia-se de tal solenidade que só seria igualada quando os americanos fossem à lua com os seus foguetões e todas as aparelhagens montadas em Houston, U.S.A..
A importância da chegada da camioneta era um facto verificado e comprovado, diáriamente, com o mesmo interesse para as gentes da terra e só o progresso é que se encarregaria de destruir, lenta e calmamente, essa importância, com os seus dentes de conquistas devoradoras do futuro. A camioneta businava à entrada da povoação e as pessoas despertavam do seu letargo e vinham para a estrada olhando para os relógios, admirados da precisão com que se cumpriam os horários. Os barbeiros deixavam os fregueses sentados nas cadeiras, com sabão a secar-lhes na cara e vinham à porta, de navalha na mão a luzir brilhos, para se inteirarem das novidades. Que comentavam enquanto faziam barbas ou desfaziam cabeleiras aos clientes. O Balbúrdia, que arranjara a alcunha graças ao seu falar atabalhoado, ía mesma à camioneta para saber notícias doutras terras e era o cobrador, o Chumbado Coelho, que o informava com o maior número de pormenores o que se passara em Faro, Olhão, Tavira, etc..
Porfírio abria, com a custumada solenidade, a porta da camioneta e saía para a estrada onda ficava a desentorpecer as pernas, de tal moda que ninguém, nem mesmo as crianças, eram capazes de imitar. Ficava ali, estendendo os braços para trás e para a frente, dobrando o corpo para os lados enquanto flectia as pernas e as atirava, ora para a frente ora para trás, como se estivesse a dar pontapés numa bola de futebol. Dando tempo a que as senhoras o vissem. Depois dirigia-se para a taberna do Simão Carolo onde bebia, regaladamente, um pirolito.
O cobrador descarregava cestos e sacos do tejadilho atirando-os para o chão duro de alcatrão ou para as mãos dos passageiros que ainda agradeciam. Depois exigia que subissem os dois primeiros degraus para que lhe pusessem ao alcance das mãos as bagagens a carregar.
- Dê lá um geitinho, amigo ! dizia ele.
As pessoas esforçavam-se um pouco mais ainda e davam o jeitinho necessário, sem um agradecimento.
Quando tudo estava despachado o Chumbado começava a campainhar puxando por uma correia, de cabedal, velha e suja, que estava pendurada no tecto da camioneta e, se o Porfírio não aparecia logo, businava três vezes, que era o código deles para se cumprir o horário. Então, o Porfírio, vinha com todos os vagares em direcção da camioneta, com os seus ares misteriosos de saber pôr tudo aquilo em movimento a levar as pessoas dum lado para o outro.
- Está tudo ? - perguntava ao Chumbado.
- Tudo.
Businava uma vez mais. Depois a camioneta lá seguia o seu destino, cumprindo horários, com alguns retardatários ainda ocupando os seus lugares.
- Vamos lá sentar- pedia o Chumbado Coelho.
O Balbúrdia ía ensaboar de novo a cara do freguês quase adormecido na cadeira.
As moscas dançavam os seus bailados monótonos, pachorrentos, tranquilos, sem se cansarem de seus ritmos.
Venda Nova ficava outra vez a mesma. Sem camionetas. As mesmas pessoas. Como um rio parado.

CONTO XII


Nem eu, cem anos depois, saberia o que tinha sido o futuro.
Apenas me tinha chegado o retrato para interrogar; e as datas por de trás para conferir; e pequenas notas alinhadas de registos indecifráveis dispersos pelo forro da moldura:
Mas ninguém sabia o que iria ser o futuro.
Tudo se passaria como se as pessoas andassem de olhos vendados e só se apercebessem o que ele significava quando já tivesse passado.
Isso não impedia que eu pensasse em coisas que não estavam adequadas à minha idade e fazia-o com todos os segredos, cautelosamente, para que ninguém desconfiasse de nada. Achava que tinha todo o direito da pensar como pensava embora não tivesse idade para isso.
Pensava que teria sido bom viver com o meu avô, guiando os seus passos cansados, para que ele me ensinasse a ser neto e falasse, visse e ouvisse comigo. Mas também pensava que, para ele, devia ser mais interessante ter morrido com setenta anos, só para não ver mais, para não ouvir mais, para não pensar mais, para não estar mais interessado em tudo o que poderia ter feito e não fez. Para deixar que os outros fizessem melhor. E para saber, mesmo no seu silêncio de morto, que os outros nunca serão capazes de fazer melhor do que as gerações anteriores, embora digam que o estão fazendo.
Pensava que o meu avô tivera razão em morrer, por que há razões para tudo e os avós terem de morrer é uma razão muito forte. Muito mais forte do que os jovens morrerem nas guerras, mesmo que pertençam aos vencedores.
Eu gostava muito do meu avô. Que tinha morrido para si mas que vivia nas pessoas, em mim e nas coisas que me rodeavam. Gostava tanto dele que muitas vezes tinha vontade de lhe pedir que descesse do retrato para me beijar com aquelas barbas de santo, apóstolo ou profeta, não sabia bem. E depois tinha medo que ele ouvisse os meus pensamentos e viesse, embora fosse coisa impossível e de espantar descer do retrato para me beijar.
Como seriam as barbas do meu avô se fossem vivas e não estivessem ali arrumadas no retrato, mas ondulando ao vento?
Como seriam os ouvidos do meu avô para mim ?
Se ele tivera ouvidos pacientes para toda a gente também os teria para o seu neto. Talvez ainda ouvidos mais complacentes dos que os das histórias das bondades que os outros contavam dele.
E tinha dívidas. As dívidas praguejadas por meu pai.
Eu não lhe dava razão, ou ao que ele dizia, por que falava dum morto e do seu próprio pai. Uma pessoa que não podia defender-se tinha, para mim, qualidades que não tivera, talvez, para mais ninguém. As coisas importantes existem para as crianças que acreditam nelas.
Tinha reprovado no segundo ano, era mau aluno, mas era um problema meu. Por que os estudos só a mim poderiam fazer doutor e ser importante. Como meu pai dizia dos outros doutores.
- É tudo deles !

terça-feira, dezembro 13, 2005

quarta-feira, dezembro 07, 2005

CONTO XI

A história repetia-se, geração após de geração, desde a invenção dos sonhos e dos canudos. Então, revejo o inesquecível Bolero de Ravel percorrendo o drama de Les uns et autres de Claude Lelouch e a seguir registo o que me dizem :

O meu pai queria para mim um canudo que era, afinal, o seu. Os sonhos dele, em mim, para que eu os realizasse.
Aos doze anos encaminhou-me para a estrada que leva aos destinos dos outros, para o que julgava ser melhor na transformação de uma criança em homem, mas a vida à minha frente seria muito diferente da dele habituado a manejar a vontade dos outros com o seu poderio económico.
Aos catorze anos perdera o ano. Mas tinham passado dois anos importantes para mim, sem a necessidade de ter aproveitamento nos estudos. Tinha aprendido nesses dois anos o que não vem nos livros. Que vem nas pessoas e na vida. Tinha fugido durante esse tempo à vida amarga dos campos, àquela vida sem esperanças, àquela morte feita de mil misérias quotidianas, por uma escolha inconsciente. Sem saber se era mais feliz do que aquela gente que nunca se queixava, mas julgando sabê-lo porque era filho daquele senhor tão importante que não me obrigava a comer papas de milho e pão seco com azeitonas que caiam, podres, das oliveiras.
Eu nascera diferente ao ser filho dum homem que toda a gente teme e respeita por que está nas suas mãos de ferro e agressão o pão que comem. Do homem que vai de uma quinta para outra montado orgulhosamente na sua bicicleta que tem farolim de carbureto para não perder velocidade. Ou para que o progresso do dínamo não o obrigue a usar mais força para se deslocar.
Toda aquela gente arrastada de servidões antigas tinha ficado satisfeita quando eu nasci como se pudesse ser para eles uma esperança de futuro melhor. Mas iria ser mais um elo que tornaria maiores as prisões, se não houvesse um outro futuro independente das pessoas, para fazer dos seus filhos seres idênticos a viverem uma continuidade de servidão nos mesmos moldes.
O futuro estava esperando por todos, com os dentes afiados do tempo, e durante quarenta anos seriam desfeitas muitas concepções sem lágrimas desnecessárias de ninguém.
Sem o saberem, eles tinham ficado satisfeitos com o meu nascimento pois que eu era o futuro que esperavam ou uma esperança de regresso a um passado que fora mais humano e mais compreensivo com as classes mais desprotegidas.
Um desses trabalhadores, quando eu tinha um ano de idade e de gatas procurava descobrir o mundo dos outros, evitou que eu tivesse caído dentro dum poço com dezasseis metros de profundidade, onde certamente me teria afogado. Agora, que tenho catorze anos e a consciência de muita coisa que não sei bem, acho que teria sido preferível que me tivesse ignorado e me deixasse afogar. Não teria perdido o segundo ano do liceu. Nem teria futuro. Nem passado. Tudo teria ficado no fundo desse poço e para mim não teria havido lágrimas dos outros. Nem as minhas que nunca serviram para tornar as coisas diferentes. Que apenas ficaram com lágrimas desnecessárias, esquecidas até por quem as chorou.
Aos catorze anos, embora não fosse ainda ninguém para os outros porque era uma criança inocente já era um pouco de alguém para mim naquilo que pensava. Os meus olhos estavam abertos para o mundo e os meus ouvidos traziam-me palavras que me obrigavam a pensar. Sentia-me injusto comigo e com os outros ao mesmo tempo que descobria o meu mundo e o mundo dos outros.
Quando os trabalhadores comiam pão e azeitonas falavam do meu avô, o pai de meu pai, e contavam histórias bonitas de comidas quentes. Contavam bondades antigas como se fosse possível vê-las repetidas com humanidades recentes.
E contavam mundos possíveis num mundo de coisas e de pessoas impossíveis.
As pessoas não sabiam ainda que a melhor maneira de ser humano só podia ser conseguida com novas formas de justiça social. Apenas os sábios, os filósofos, os poetas e sonhadores e as crianças estavam pensando nisso e davam o seu sangue em troca das suas ideias. As pessoas estavam esperando, inutilmente, um regresso ao passado para a constituição dum futuro melhor e cultivavam as flores da tradição.
O meu pai lamentava-se que meu avô deixara dívidas e que nunca tinha dinheiro, por culpa do pai. E eu também nunca tinha dinheiro porque o meu pai não mo dava.
O meu avô tinha morrido antes do meu nascimento e deve ter tido muita pena de não me ter conhecido. Nem eu, nem ninguém, lhe poderia já dizer as queixas do meu pai. Eu também não lhe podia dizer que ele, afinal, fora justo pois que vivera como fora capaz. Não aparecia para negar as palavras do filho ou as bondades de que os trabalhadores falavam. Continuava só a ser a esperança daquela gente sem esperança que voltava os olhos para mim na vã tentativa de verem repetido um passado no futuro que eu representava. Mas o passado já tinha voltado as costas a toda a gente.
Eu vivia inconsciente em mim. Era uma criança que não aprendia as lições dos livros e sem poder ser medido por essa leitura. Estaria destinado, para mim, que nunca seria um senhor importante, por ter um canudo dos sonhos de meu pai, mas a época seria também a da desvalorização dos diplomas pois os próprios diplomados se encarregariam de os manchar ou de os tornar inúteis e sem importância. Hoje toda a gente sabe isso, mas quando eu tinha catorze anos ainda ninguém o sabia. Quando o souberam já era tarde de mais para se apagarem os actos construidos no dia a dia de quarenta anos.
Meu avô continuava morto. Irremediávelmente esquecido de si, da sua época, dos seu erros. De todos. Esquecido de mim. Lembrado em mim pelas palavras dos que o tinham conhecido, dos que o tinham desejado como vivo para ressuscitar uma época apagada pela geração de meu pai.
Lembrado em mim pela fotografia da sala. Onde ele estava sempre quando eu queria encontrá-lo. O meu avô, humano dos outros, contido pela moldura do retrato.
O meu avô de barbas grandes no retrato pendurado na parede da sala olhava para tudo e via tudo com os seus olhos de retrato, sem uma palavra ou uma censura para o seu filho sem um aplauso para a minha ternura.
Às vezes dava-me vontade de lhe pedir que descesse do retrato e viesse ver os trabalhadores comerem pão com azeitonas. Que viesse para escutar com os seus ouvidos as histórias bonitas que eles contavam. Mas não pedia nada porque seria uma doidice pedir a um retrato um coisa dessas.
Pedia só, o melhor que podia pedir como criança, por dentro de mim, no silêncio das minhas palavras e do seu ouvir. Pedia e tornava a pedir até ver nos olhos do meu avô um olhar de compreensão. Porque ele compreendia tudo o que eu pensava e via tudo o que eu não dizia. Porque ele tinha vivido também, sabia bem desse ofício de viver e morrer, teria chorado por si e pelos outros sem que ninguém lhe pedisse. Sem saber sequer que eu seria um dia mais tarde o seu primeiro neto e que me iria acompanhar, em cada momento da minha vida, morto em si, mas vivo em mim. Ele sabia isso porque não tinha outro futuro senão o que levara consigo quando morreu. Ele não sabia, mas eu sabia-o. E contava-lho sempre que podia porque estava sempre à minha espera no retrato da parede.
Minha mãe entrava, às vezes, na sala e encontrava-me muito compenetrado em frente do retrato nos diálogos do nosso silêncio. E dizia-me sempre, mesmo que nada lhe perguntasse :
- Aquele senhor das barbas é o teu avô.
- Já sabia, mamã.
- Morreu há muitos anos.
- Era boa pessoa ? - perguntava eu só para ouvir o que a minha mãe iria falar elogiosamnente.
- Dizem que sim... Que eu não conheci bem...Tinha umas barbas muito grandes.
Essa era a evidência do retrato.
- Morreu novo ?
- Tinha setenta anos.
- Já era velho.
- Sim - respondia minha mãe.
- Gostava de o ter conhecido.
- Morreu antes de tu nasceres.
Minha mãe explicava o que sabia sobre o meu avô mas não me dizia o que eu já sabia...
- Vai brincar para a rua - rematava ela.
Eu dava um último olhar ao retrato sem dizer nada, fixando os meus olhos nos do meu avô. Era a nossa despedida. Eu era uma criança e ninguém liga importância aos disparates ou as crenças das crianças salvo quando têm interesse nisso.
Sabia que meu avô morrera três anos antes do meu nascimento, que eu tinha o nome dele e ainda mais um nome de família de minha mãe e sabia muito mais coisas que me contavam os estranhos, mas não dizia nada a ninguém. Nem a minha mãe. De resto eu era uma criança e quando se é criança há muita coisa que não se deve saber para que as pessoas mais velhas digam que nós somos inocentes. E que não sabemos o que dizemos ou fazemos. As crianças têm de aprender a ser crianças ainda qua não haja nada que as ensine.
Nessa época ainda não havia jardins escolas que nos ensinassem, devidamente, a brincar e as nossas brincadeiras eram brincadeiras de crianças que não sabiam outra coisa do que brincar sem a ajuda dos conhecimentos dos adultos. Éramos, no fundo, crianças felizes. Não tinhamos complexos por que não tinham sido ainda levados para os meninos que viviam afastados da civilização. Éramos mais irresponsáveis e toda a gente contava com isso. Mas já tinhamos a certeza de que quando fossemos homens iriamos ser como os outros homens e teriamos filhos e tudo para os deixar brincar.
Depois, muitas dessas coisas iriam ser diferentes. O meu pai seria uma pessoa como as outras e depois ainda seria menos porque o mundo do futuro viria destruír o seu.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

CONTO X

O tempo da Nora ainda não tinha chegado.
Venâncio Figueira continuava estendido no melhor fato com o seu caixão. Ninguém queria deixá-lo só! Não fosse acontecer o mesmo que ao velho Lester,do romance de Caldwell a Estrada do Tabaco, em que os ratos devoraram quase todo o lado esquerdo do rosto e parte do pescoço.
- Quando o médico chegou já tinha morrido !
Quantas vezes já morrera meu pai na boca de minha mãe ?
Quantas vezes já eu ouvira as palavras da morte dele nas bocas dos outros ?
- Se estivesse em Lisboa talvez se salvasse - disse um cavalheiro com palavras cheias de fumo da civilização e dos recursos extremos. Lisboa é a cidade onde não se morre ?
Ou morre-se a viver ?
- É uma cidade onde nada falta - acrescentou.
Como deve ser grande a dor numa cidade assim !
Em todo o mundo se morre. Mortes ignoradas e necessárias.
Meu pai morrera a sua morte necessária, irremediável, da mesma maneira como vivera.
Lutando arduamente, rijamente, pelas coisas onde cravara as raízes das suas ideias. E dos seus sonhos, talvez !

quarta-feira, novembro 30, 2005

Nora







A Nora era um pequeno lugar junto à estrada que vinha e ía a Tavira e a Vila Real de Santo António. Junto à paragem das camionetas da carreira, a mercearia cheirava ao Café Guadiana da torrefação e moagem de café Palermo & Osório, Lda com o nº de telefone 12 de Mértola. A alguns cantos do balcão o cheiro alternava entre canela, açucar mascavado, alfarroba, cebolas, bacalhau.
Pela frincha das portadas podiamos observar quem apeva das carreiras e seguia seu destino para a Fábrica, onde o Estica já pescava naquela chata que um dia iria ficar atolada, na maré baixa da ria, bem do outro lado, frente a Cacela, e afastada das marés Santa Rita. Quase todos eram compadres, comadres ou parentes. Quando se entrava na mercearia dizia-se sempre:
-Oh! comadre...
-Diga lá compadre...
-O parente não está ?
-Saiu com a comadre e aventaram o norte.
Aqui, era a Nora o sítio onde se discutia se o miúdo devia ou não ser batizado e que o padre sempre pressionava.
-A ser batizado terá de ser em Fátima. Sentenciava o pai, fazendo correr lágrimas de fé nos presentes.

segunda-feira, novembro 28, 2005

CONTO IX


Em 1930 morria-se, impiedosamente, de tuberculose pulmonar.
- O pai também morreu tuberculoso - diziam.
- Andou toda a noite a dançar e depois foi para a rua com a camisa suada ! Foi da frieza.
- Coitada, levava os dias agarrada a máquina de costura.
- Eram muitos filhos e a comida pouca !
Famílias inteiras foram dizimadas. A guerra é que traria a cura com as penicilinas. As pessoas ficaram, então, satisfeitas por que a guerra acendera esperanças mortas e toda a gente dizia que os filhos não teriam morrido, mesmo que fossem tuberculosos, se a guerra tivesse sido antes. Saber-se que há cura para males de que antes se morria já é uma satisfação grande para os que não morreram atingidos por esses males. Mas haverá sempre novos males a afligir a sociedade, em qualquer tempo, ainda que as pessoas tenham encontrado todas as soluções.
As soluções serão sempre tardias e as pessoas serão outras.

quinta-feira, novembro 24, 2005

CONTO VIII



- Quando o médico chegou já tinha morrido, explicava minha mãe o desenlace final.
-Era a morte... Era a morte ... - confirmou a Lúcia Zarolha com o pesar estampado na sua cara de sapato velho, sem lustro. E todas as pessoas meneavam a cabeça em gestos, de muito entendimento por uma morte tão morte e tão evidente.
Tão evidente que o morto estava ali, impassível, para o afirmar com a sua presença.

quinta-feira, novembro 17, 2005

CONTO VII



Numa pausa olhei a vidraça que me dava o enquadramento de um trecho de horta arqueológica. Um papel amarrotado deslizava, movido pela brisa da tarde, no parapeito da janela, pelo lado de fora, assemelhando-se a insecto encantado pela luz. Abri e li :
Tinha ido para o Liceu, aos doze anos, porque meu pai, para quem eu olhava com muito respeito, ou com muito medo de olhar, tanto que quando estava sentado à mesa fazia o meu olhar passar por baixo dela antes de o dirigir a ele, me disse, certo dia, depois de completar o exame de instrução primária:
- Ouve lá. Tu queres ir estudar, ou queres ir trabalhar no campo?
- E o que é estudar? - Perguntei com os ares mais inocentes deste mundo.
- Estudar é seres uma pessoa esperta e importante.
Era o que eu mais queria ser!
Meu pai continuou :
- É não fazer nada.
Era também o que eu mais gostava, para ter muito tempo para brincar.
- É a vida fácil - disse meu pai com seus ares de pessoa que sabe tudo, que podia garantir com autoridade tudo o que dizia com o seu soberano afirmar " quero, posso e mando “.
Para mim não havia ninguém nessa altura da minha inocência que soubesse mais do que o meu pai, ou que tivesse mais autoridade do que ele pois castigava as crianças e toda a gente estava de acordo. Se ele quisesse até podia matar-nos.
Nós não sabíamos o que era morrer mas todos achávamos que estava bem, que podia matar-nos para fazer justiça.
- O senhor doutor Campos e o Senhor doutor Abraão também estudaram por isso são agora pessoas muito importantes. Têm um canudo. E é muito importante ter um canudo - assegurou meu pai.- Quem não o tem não tem nada. Quem não é formado é uma trampa!
Para mim era-me grato ser uma pessoa importante com canudo das considerações para não ser uma trampa e andar a não fazer nada, como meu pai dizia. E ele sabia bem o que dizer pois quando dava ordem aos trabalhadores ninguém o contrariava, mesmo quando se tratava de homens muito mais velhos do que ele, capazes de serem seus pais.
Com doze anos eu gostava de tudo o que era bom embora ainda não soubesse bem estabelecer as diferenças. Por isso meu pai explicou e continuou a explicar muitas coisas que eu não compreendi mas não disse nada porque ele não admitia que as pessoas não compreendessem logo.
Eu quis ir estudar porque era, segundo a concepção geral, não fazer nada e optei por essa solução que não me agradava muito, pois que tinha de ir para Faro, mas que era o que dava menos trabalho.
Sabia muito bem o que era trabalhar no campo por que desde pequeno me habituara a ver os homens e as mulheres agarrados a uma enxada, ao arado, ou à foice, como escravos que só tinham nascido para essa servidão.
- Nasce uma pessoa para trabalhar - dizia um com cansaços velhos.
- Para andar uma vida arrastada - diziam todos os que eu conhecia.
Pessoas vestidas de panos velhos, gastando a carne, sem tempo para pensarem em injustiças ou esperanças. Homens que só tinham cara para que o suor lhes escorresse nela. Com olhos a brilharem claridades fenecidas coladas nessas caras de esforços e de martírios.
Trabalhar era suor e desânimos.
As mãos a varrerem com gestos parados o que escorria pelos sulcos abertos no pó, na dor, no tempo suspenso naquelas caras sem esperanças e sem lugar para sonhos.
Sabia o que era trabalhar.
Via aquela gente que não sabia rir nem chorar. Que talvez já nem soubesse o que era sofrer, o que era o drama de viver assim porque para eles, a vida e a morte eram irmãs gémeas. Que não tinha outra explicação que serem injustas.
Eu não queria trabalhar no campo como aquela gente que, afinal não era ninguém. Que só tinham nascido para o que contassem com eles para um trabalho sem principio nem fim. Que só tinham nascido para sonharem pesadelos inconscientes. Com destinos iguais de pais para filhos, por toda a eternidade. Uma eternidade de nunca acabar. Aquela gente era uma manada. Um rebanho de tantos homens e tantas mulheres contados como cabeças de gado a andarem de um lado para o outro da sua eternidade. Uma eternidade que nunca devia ter começado porque era só de sofrimento. A eternidade devia ser justa. Devia ser um pouco melhor para aquela gente.
Eu era criança e gostava dos trabalhadores como se fossem meus filhos. Não podia fazer nada por eles ainda que me juntasse às suas dores porque a minha voz seria uma voz calada como as deles.Sim, eles eram o coro das vozes caladas de todos os séculos que ainda não tinham morrido. Eles transportavam a dor através de todos os tempos e nunca lhes faltou as forças.
Mas não queria ser como aquela gente que já não sabia gritar, que andava todo o dia vergada para o chão mordendo-o com a enxada, com as vozes dos desânimos partidas pela cintura porque eu não me sentia com forças para calar o meu grito. Se o abafasse dentro de mim, explodiria e seria a trampa das comparações de meu pai. Antes queria ir estudar para não fazer nada e ter um futuro igual aos senhores de canudo que eram importantes porque eu ainda não os conhecia bem. Mais tarde iria saber que muitos deles eram muito menos do que os trabalhadores de meu pai.
Tinha só doze anos e os olhos e os ouvidos de aprender lições que as pessoas mais velhas estão sempre ensinando porque não foram capazes de aprender as suas, suficientemente. Não queria ser como aquela gente que trabalhava para comer papas de milho ao almoço e ao jantar. Papas de milho sempre. Sem um protesto grande. Sem um lamento pequeno. Sem um grito que suspendesse a vida por instantes para que ela fosse diferente nesse grito. Sem revoltas desnecessárias para não gastarem gritos.
Para pouparem forças que talvez já não possuíssem.

terça-feira, novembro 15, 2005

50 avos



Exemplar da nota que o Paneiro tinha no bolso do seu fato branco de marinheiro, quando do regresso a Venda Nova. Comprovativo que utilizava para as histórias sobre a China.

segunda-feira, novembro 14, 2005

CONTO VI


O pai do marquês saíu do Faustino no seu fiat uno branco, consequência do prémio conseguido nos bilhetinhos do Sr. Zé e lembrou a açorda de marisco que tinha em tempos comido na Ericeira, ainda Flore era sua amante. Por isso e também a pretexto de abençoar o fiat viajaram para Fátima , o pai do marquês e Flore agora já como sua esposa. Passaram pela Ericeira e mandaram vir a açorda de há trinta anos.


No casal, o cheiro a alfarroba já não percorria a casa, que agora era de espíritos e energias ocultas por um biombo coçado. Às vezes o cheiro da cânfora sobrepunhasse ao da madeira queimada na pequena lareira e um ou outro papel meio queimado esvoaçava pela única divisão da casa.

À minha chegada levantou os olhos por cima dos óculos de ver ao perto e leu-me o que acabara de escrever:

A medida do Ruana era uma concha grande que tinha apanhado também na praia. E com os magros cobres que ia obtendo podia comer uma sopa numa taberna qualquer e beber uns copos que o aqueciam por dentro e por fora.

Tinha o seu destino ligado talvez para sempre à taberna, a apanhar hoje conquilhas e viver amanhã de recados, mas ninguém lhe chamava gandulo, como o meu pai se fartava de dizer-me uma e outra vez, sempre que lhe apetecia.

Mas eu tinha, então, a juventude a desabrochar dentro de mim e a sua força cega a levar-me a fazer muitas asneiras, ainda que tivesse de ouvir todos os dias as palavras agressivas e duras de meu pai. E haveria de ser sempre eu, mesmo que me ameaçassem com o destino dos outros. Mesmo que me dissessem que viria a ser, um dia mais tarde, do meu futuro desconhecido, igual ao Paneiro, Arturinho, Ruana, Zé Melão ou Ratinho.

O Ratinho era baixo, forte e com tronco excessivamente desenvolvido.Os cabelos eram escorridos como de um rato saído de caneiro. Tinha uma pêra que terminava em bico e uns bigodes insolentes virados para cima e de pontas afiadas, como hastes de touros.

Era natural de Venda Nova mas abandonara a casa paterna e fora para Espanha onde esteve durante vinte anos. Só regressou após a morte dos pais e, até à sua vinda,ninguém sabia nada da sua vida. Muitos julgavam que ele tivesse morrido, algures em Espanha, sem regresso para ninguém. Foi, portanto, uma surpresa grande quando apareceu com o seu ar muito espanholado, falando um português mesclado com arrebiques salerados e uns olés mais ciganos e castiços que ditos por qualquer espanhol.

Dava saltos mortais que espantavam as crianças, encantadas de tanta coisa bonita, e trepava pelas paredes como se fosse gato fugindo de cão danado. Na parte mais alta dava uma volta ao corpo e descia assim. Mas só fazia essa habilidade em circunstâncias muito especiais. Era quando as pessoas acreditavam que ele tinha sido toureiro em Espanha.

A mim fazia-me muita confusão que fosse preciso amarinhar pelas paredes para se ter sido toureiro em Espanha , e achava muito interessante o que ele fazia e até já experimentara fazer o mesmo sem o conseguir.

Gabava-se que fora um perigoso conquistador de espanholas e assim ia gastando, alegremente, o que lhe coubera da herança com grande desgosto de seus irmãos e sobrinhos que viam delapidado o património que um dia lhes pertenceria de direito pois o Ratinho era solteiro e sem filhos conhecidos. Diziam que era melhor para a família que ele morresse do que andar a fazer aquelas figuras tristes que só serviam para colocar mal o nome respeitado dos Sousas e deixaram de lhe falar. Isso para o Ratinho ainda serviu para ficar mais tranquilo acerca dos familiares que não lhe davam nada, nem nunca lhe dariam, conforme o futuro iria demonstrar com a sua lógica indesmentível.

O certo é que o Ratinho continuava , imperturbável, com o seu destino de nenhum futuro, dançando como um cigano sem acampamento ao matraquear de umas castanholas coloridas e ruidosas que marcavam o compasso dos fandanguilhos e dos seu olés gritados com todo o salero de alma cigana e errante. Quando não dançava e cantava ia pela rua fora, de taberna para taberna, com o seu andar bamboleante de bailarino cansado e, de vez em quando, dizia " Olé ! " com a gana de cantador e a alma vagabunda na voz.

Sucedeu, então, o imprevisto. Descobriu-se em Venda Nova, por um singular acaso, que o Ratinho só gritava os seus olés quando lhe passava ao pé algum corneado, o que causou, como se deve calcular, um pânico tremendo entre os homens casados da vila. Tal foi o problema que, daí em diante, os homens começaram a andar aos pares. Assim, cada um deles ficaria sempre com dúvidas e pensaria, para seu íntimo sossego, que o olé se referia ao outro. O Ratinho, porém, apelando para a sua imaginação, resolveu o assunto à sua maneira, perante o pasmo e indignação dos lesados chifrentos pelos olés displicentes, e se eram ambos cornudos diziam duas vezes olé para que não houvesse dúvidas. Esclareceu o que no campo das virtuosas senhoras se passava em Venda Nova. O que foi muito grave e teve foros de meia tragédia. Os visados representavam uma percentagem que ía além da maioria o que já garantia, muito democraticamente, a tomada de uma posição sem oposição. A sociedade de Venda Nova foi abalada pelos olés do Ratinho e como o homem social tem sempre grandes meios para se defender da minoria perturbadora da boa harmonia estabelecida logo se procurou a solução conveniente e o inevitável aconteceu.

O Ratinho era maluco e não sabia o que dizia. Que ninguém devia ligar importância a um doido que derretera o que era dos pais e andava ao Deus dará sem a noção das responsabilidades com as suas acrobacias de circo e os seu olés de ofender pessoas decentes e respeitáveis que não tinham nada que se lhes apontasse. Que ninguém apontava a não ser o Ratinho.

Este, sem dizer nada, sem mostrar medo da sociedade que o alcunhava de maluco para se permitir continuar com os mesmos defeitos, torcia e retorcia os afiados bigodes e a cofiar a pêra com o desplante de toureiro que acabou as sortes e ficou com o touro vencido a seus pés, agonizante, com babas riscadas de sangue. As guias afiadas do bigode lembravam hastes finas de touro saídas da sua cara de escárnios para agredirem sem palavras a decência das pessoas que não eram malucas e o espaço à sua volta como tábuas de uma arena onde as lides as cansavam até as matarem.

Meu pai profetizava-me um futuro sem futuro e eu iria demonstrar que ele estava redondamente enganado. Que estava errado comigo e com os outros. Que era injusto e só via as coisas sob o prisma do seu interesse e dos seus egoísmos capazes de devorarem as vontades e as esperanças das pessoas. E de uma criança que via o mundo com os seus olhos de verde onde as flores ainda não tinham nascido.

Nem queria pensar no meu futuro. Uma criança não deve pensar nessas coisas complicadas e o facto de meu pai me obrigar a pensar no passado já me aborrecia bastante. Mais do que toda a gente poderia imaginar. Por minha vontade nunca teria tido essa coisa do passado, nunca o teria sequer desejado, nunca me teria preso, voluntariamente, a uma coisa tão pesada e de tanta responsabilidade. Era tão livre como um pássaro voando, embora me cortassem todas as asas da imaginação e procurassem que eu fizesse o que não podia. Não tinha forças para ser mais do que uma criança, a criança que era e manteria viva dentro de mim pela vida fora. Se pudesse.

domingo, novembro 13, 2005

Fonte Santa


A Fonte Santa era um outro limite para as nossas brincadeiras. A ribeira em Julho ainda levava água e as mulheres aproveitavam para corar roupa. As barrelas mancham por momentos o pequeno fio de água que corre entre duas pedras. Mergulhamos na água até que uma cobra de água divide a água assustando-nos. Pegamos nas nossas Flaubers, apontando à sombra da cobra zig-zageando na água e nos arbustos assustada. As bicicletas aguardando que o vento norte anuncie o fim da brincadeira e na casa, o candeeiro a petróleo ilumine o sonho.

segunda-feira, novembro 07, 2005

CONTO V


Ainda no Faustino entre dois cafés o pai do marquês mentalmente:

Que diferença entre a vida daquele tempo e a de agora ! - pensei.
- Sentidos pêsames. Sinto muito. - disse uma dessas antiguidades que não reconheci.
- O menino já não me conhece ? - A sua cara não me é estranha.. . .
Sou o Arvela. Trabalhei lá em casa de seu pai, que Deus tenha a alma em descanso.
- Trabalhava na horta - explicou minha mãe.
- Já sei quem é - disse eu sem me recordar de nada.
- Quem havia de dizer que o menino ainda havia de ter um futuro tão bonito.
Se o Arvela soubesse o que era a minha vida e o que valia para mim teria ficado calado para não ofender as minhas intimidades. Mas via-me de gravata, com o fato preto do luto por meu pai, e julgava que eu tinha vindo do mundo onde tudo é abundantemente realizado. Não sabia de que mundo eu viera para estar ali, quase impessoal. Não lhe disse que o fato preto servira para o meu casamento e que estivera no guarda-fato sob a vigilância da naftalina aguardando a morte dos outros e a minha. Para que houvesse a decência dos outros no destino das tragédias vestidas de preto. Não disse nada.
Minha mãe continuava a chorar a mesma desgraça, com as mesmas palavras, os mesmos suspiros e quase as mesmas lágrimas que lhe desciam dos olhos para irem escorregando pelas faces até as beber. -
Tudo mudou - pensei

domingo, novembro 06, 2005

Vila Nova de Cacela

O marquês encontrou-se no dia 6 de Novembro de 1805, com o barão de Cacela, António Pedro de Brito Vila-Lobos, tenente-general do Exército, comendador da Ordem da Torre-e-Espada e cavaleiro da Ordem de Cristo, com o Marquês de Loulé, Agostinho José de Mendonça, por esse tempo grão mestre da Maçonaria, para comentar o Tratado de Fontainebleau em que o Alentejo e o Algarve ficava apanágio do espanhol.

Por essa altura nascia o avô de Venâncio Figueira. Na história dos Figueira as mulheres não contam e tal com Venâncio todos eram filhos de mãe desconhecida, como se Deus ainda continuasse a criar Adão e lhes desse o apelido Figueira.

Por essa altura já Cacela se destinguia de Vila Nova de Cacela, aldeia que cresceu junto à estrada e linha do caminho-de-ferro, passando-se a chamar –Velha. Também a Nova se chamaria mais tarde de Venda Nova para destinguir o aparecimento das actividades económicas modernas. Entre elas, os Figueiras, possuiam duas tabernas, uma no Buraco e outra na Venda Nova, esta de um lado taberna do outro mercearia e retrosaria. A ligação entre elas era feita através de uma porta louca vai-e-vem.

O senhor António, empregado dos Figueira, vinha todos os dias da Conceição para a Venda Nova na carreira da Moncarapachense e regressava no fim do dia na Pilar. Baixinho, cabelo abrilhantado, rindo muito, haveria de repartir com os clientes, da opção taberna, as grandes bebedeiras de fim de dia, regressando aos tombos, com a ajuda do revisor, ao seu habitual lugar no veículo.