<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747</id><updated>2011-04-22T01:15:58.595+01:00</updated><title type='text'>Casas, Coisas e Louças Velhas</title><subtitle type='html'>Contos, Fotos e Histórias do Marquês da Ajuda, Cacela e Sta Rita</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>53</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-115632213507412303</id><published>2006-08-23T09:34:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:49:00.281Z</updated><title type='text'>Complexo de Ofélia (a galinha)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Ofélia possuía personalidade de fêmea. Passeava a sua classe, quintal fora, com distinção de quem desfila em passerelle. O seu sonho, ainda franga, era ser rainha de uma capoeira sem redes, um lugar na natureza, batido pelos ventos, agitando a plumagem luzidia. Galinha de sonho de um galo encantado, longe da panela, do forno e das fogueiras. Ofélia detestava os santos populares. As crianças corriam, saltavam sobre o fogo, queimavam alcachofras, frutos do cardo manso que também ardia. Mas as alcachofras eram tipo Fénix, renasciam do fogo no dia seguinte, bem... algumas, porque outras ficavam em carvão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Mas o que estava a acontecer não era a realização do sonho era a confirmação do pesadelo. O branco de coração preto preenchia os espaços de meditação e relaxamento de Ofélia e um estranho murmurar, sibilino e verrugoso alterava o seu cacarejar. Faltava-lhe a felicidade de encontrar minhoca na terra esgravatada e galo, para companheiro de manhãs despertas pelo seu cantar. Có coró có có...có coró có có, código da madrugada e da carícia erótica. Espreguiçar asas, estendendo-as ao limite da linha de voo em corrida na exiguidade das paredes do quintal. Quantas vezes questionou Ofélia o tamanho do seu pequeno cérebro e pensamento tão vasto. Quantas e quantas vezes se interrogou: como é possível nesta dimensão ser apenas galinha?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-115632213507412303?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/115632213507412303/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=115632213507412303' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/115632213507412303'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/115632213507412303'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2006/08/complexo-de-oflia-galinha.html' title='Complexo de Ofélia (a galinha)'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-115511980638969675</id><published>2006-08-15T11:29:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:49:00.210Z</updated><title type='text'>Complexo de Ofélia ( o ovo )</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Ofélia era galinha! Ora galinha põe ovo pelo menos uma vez por semana, se não diariamente estando feliz. Era como ofélia se sentia na confrontação com o preto. Tinha o apoio das duas restantes fêmeas. Jogava em casa numa casa nova e enquanto dormiu debaixo do banco a ofélia depositava ternamente o seu ovo na material mais macio que encontrasse. Baixava-se lentamente, cú perto do chão, e com cuidado lá saía o esperado ovo. Depois o esperado cocorocó.Há quem diga que é publicidade que a galinha faz. Pessoalmente não acredito tanto nisso, mas sair um ovo daqueles, grande, cheio de clara e gema, todos os dias também deve doer. Tal como uma fêmea ter filhos todos os dias. Que canseira! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O ovo, para além do preto, eram as únicas preocupações de ofélia, a sua agenda diária. Sabia porém que, enquanto o ovo nascesse do seu cú todos os dias, haveria condescendência quanto à sua rotina diária e aos direitos e privilégios adquiridos por uma galinha revolucionária em Abril. Dizia-se mesmo que na revolução das galinhas tinha sido ela a passar o cocorocó necessário, sinal de libertação das grades das capoeiras e início da liberdade de poder estar debaixo do banco em qualquer cozinha. E não na panela. Ofélia respondia na perfeição à questão do que nasceu primeiro o ovo? a galinha?. A galinha, porque sem galinha não há ovo e este era o salvo conduto para, a palavra passe, passaporte para a eternidade da ofélia. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-115511980638969675?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/115511980638969675/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=115511980638969675' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/115511980638969675'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/115511980638969675'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2006/08/complexo-de-oflia-o-ovo.html' title='Complexo de Ofélia ( o ovo )'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-114078452795146760</id><published>2006-08-08T12:08:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:59.412Z</updated><title type='text'>Complexo de Ofélia (a origem)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:180%;color:#ff0000;"&gt;Complexo literário-afectivo &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;A ofélia dormia na cozinha, debaixo de um banco com uma toalha por cima para evitar a entrada da luz matinal e preservar a intimidade do por do ovo. Ofélia gostava de despertar com o sol já alto e passear-se um pouco por aquela dependência antes de sair para o quintal onde divagava o resto do dia até ao ocaso. Então voltava à cozinha ao seu poiso debaixo do banco. A ofélia fazia parte de uma família oriunda do Alentejo e que estabelecera poiso numa casa dos Olivais velho. Eram três fêmeas e um cágado. Para além da ofélia, que era sozinha, as outras duas fêmeas eram mãe e filha. O cágado não tinha nada a ver com a família, sendo apenas o animal de estimação e, assim, o seu elemento político.&lt;br /&gt;Quando se mudou dos Olivais para Sintra a ofélia sentiu inicialmente alguma inadaptação, apesar do banco a ter acompanhado. Era o apartamento em cave, o quintal todo empedrado sem um pouco de terra para esgravatar e sobretudo um negro de cor preta, que se confundia com a noite e de olhar de raposa que também habitava o apartamento. Ofélia tinha habitado o Olivais paradisíaco, das hortas, minhocas, carreirinhos de formigas, casulos de insectos, pequenos charcos de água, floreiras e um quintal de esgravatar. Olivais era a selva da Ofélia, o seu habitat de galinha selvagem, como se gostava de sentir, lançando pequenas corridas a pardais que também apareciam pelo quintal, a tirar partido do seu trabalho esgravatado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-114078452795146760?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/114078452795146760/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=114078452795146760' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/114078452795146760'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/114078452795146760'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2006/08/complexo-de-oflia-origem.html' title='Complexo de Ofélia (a origem)'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-114764177922497431</id><published>2006-05-14T21:58:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:49:00.070Z</updated><title type='text'>CONTO XX</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/mosca[1].jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 242px" height="237" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/mosca%5B1%5D.jpg" width="368" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Como a senhora Ana passava o dia inteiro ao sol era o senhor Patrício que tinha de fazer a comida para ambos quando acabava de tratar dos animais. Também lavava a louça por que a água estava sempre fria, mesmo no pino do verão, e porque ela sofria muito de reumatismos antigos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O meu pai, quando via ele estar a mexer as panelas com o seu ar conformado, ficava muito zangado, parecia pólvora, e vinha para casa resmungando. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Aquela gaja anda todo o dia ao sol e é o desgraçado do velho que ainda tem de fazer a comida. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Ela é muito doente, coitada! - dizia minha mãe a tentar desculpar a senhora Ana. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Manhosa é que ela é! Foi sempre uma puta sabida. Parvo é ele que lhe apara os golpes. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Para as crianças o senhor Patrício era um homem muito bom e paciente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Foi sempre um parvo - continuava meu pai, rezingão e defensor dos direitos do homem - a mulher dele comeu enquanto havia e quando o viu na miséria bateu as asas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Quem sabe as razões que o pobre tinha... - esclareceu minha mãe a defender a legalidade do casamento. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Também não sei para que quer agora esta gaja que leva o dia inteiro à boa vida enquanto ele trabalha e à noite ainda tem de lhe por paninhos quentes. Raios a partam ! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Ele é boa pessoa - disse minha mãe. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Tão bom que até é parvo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Sempre tem companhia à noite... A senhora Ana, coitada, é doente mas sempre lhe faz companhia... Assim não está tão abandonado... - insistia minha mãe mas sem explicar as razões deles. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Antes só que mal acompanhado, sentenciou meu pai que era rebelde, independente e muito senhor do seu nariz. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Vê lá se ele não a trata bem. Se ele não tem todas as atenções com ela - repontou minha mãe procurando demonstrar que as putas tinham mais sorte do que ela tivera, que era uma pessoa honesta e não havia nada que se lhe apontasse. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Se ela fosse mais nova ainda lhe punha os cornos, que ele a tratá-la assim não merece outra coisa - disse meu pai. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Tens cada maneira de ver as coisas. Pois era uma mulher assim que muitos homens precisavam - disse minha mãe a olhar muito significativamente para meu pai e depois para o lado, para um auditório imaginado, inadvertidamente. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Os que precisam têm-nas sempre. E o meu pai, que não estava para dar mais explicações por que toda a conversa fora desnecessária e as considerações muito sensatas de minha mãe não valiam nada para ele, acabou logo com o diálogo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Então, essa merda do jantar quando está pronta? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Eu e os meus irmãos ficávamos de olhos abertos cada vez que o meu pai interrompia as conversas e embora já estivéssemos habituados a que fosse assim, esperávamos que um dia qualquer falasse mais delicadamente. Ficávamos encarnados com vergonha de ouvir da boca dele imundices de lixeira e depois comíamos procurando esquecer as palavras para que a comida não cheirasse mal. Levávamos a colher à boca lembrando os excrementos deixados por anónimos debaixo das árvores onde, por descuido, atolávamos os sapatos ou as botas que depois arrastavam cheiros repelentes atrás, dos nossos passos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Meu pai sentava-se à mesa, no topo, nunca tirava o chapéu da cabeça porque era chefe de família e calvo. As moscas teimavam em pousar na sua careca luzidia desconhecedoras da importância que ele tinha e as crianças riam por que havia quem fosse capaz de fazer o que ele não podia evitar. E as moscas eram tão pequeninas, como se não tivessem importância só para desconhecerem a importância das pessoas poderosas, como o meu pai que se deslocava de bicicleta de uma quinta para a outra, dando ordens a que ninguém desobedecia pois que ele não admitia desobediências. Doutra maneira ele os deixaria passar fome e a todos os filhos para os ensinar a obedecer. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Nos tempos quentes o meu pai deitava-se numa preguiceira a dormir a sesta e o chapéu sobre a cara para que as moscas não lhe pousassem no nariz. Mas elas andavam a passear nele muito lentamente, descontraídas, a fazerem-lhe cócegas. Depois paravam, levantavam as asas em exercícios ginásticos e cagavam-lhe em cima do nariz. Ele acordava, apanhava o chapéu do chão, tornava a pô-lo sobre a cara e voltava tudo ao mesmo se tivéssemos paciência para continuar a ver ou se éramos obrigados por castigo. Quando estávamos de castigo íamos, devagarinho chamar as moscas para que elas o invadissem até que ele se aborrecesse de dormir e saísse para depois ficarmos à vontade e podermos brincar. À hora das refeições ninguém podia falar e o primeiro que o fizesse era logo advertido por minha mãe com o seu aforismo sempre no mesmo estilo: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Ovelha que berra bocado que perde? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Continuávamos a falar, pois a comida era certa, até que meu pai gritasse: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- É comer e calar. Todos nos calávamos. Quando os adultos mandam calar assim as crianças elas ficam logo a pensar que o destino devia mandar qualquer coisa que as vingasse. E o destino muitas vezes ouvias. Duas moscas vinham lá de cima abraçadas pelo amor e caiam no prato da sopa de meu pai. Nós guardávamos os risos e os comentários para depois, quando houvesse possibilidades de saborearmos a vingança. Minha irmã Rosália reconstituía a cena, com o prato na frente e as moscas nos dedos, como aviões picando, com as caras furibundas e as palavras que o pai empregava nessas ocasiões. Meu pai sabia disso e implicava com ela, até porque era parecida com minha avó Teresa, pessoa muito independente para mãe dele e com quem não se cortava muito bem. Eram muito parecidos fisionomicamente e nos feitios. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Vocês viram aquelas moscas que caíram no prato do velho? - Perguntava Rosália. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Vimos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Andavam as duas no ar - acrescentava ela - e até julguei que elas se deixassem. Mas não. Moscas lindas! Acabaram por cair no prato dele. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Estavam gordas - disse eu. - Foi a Providência - disse o Luís. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Estamos a falar de moscas e não de religião - disse minha irmã Rosália a arremedar o velho. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Reparaste na cara dele? - Perguntei. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Que grandes trombas!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Mas isso teve alguma graça? - Perguntou o Luís que era muito respeitador das ideias do pai e o neto favorito da avó Teresa.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-114764177922497431?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/114764177922497431/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=114764177922497431' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/114764177922497431'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/114764177922497431'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2006/05/conto-xx.html' title='CONTO XX'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-114710733464300006</id><published>2006-05-08T17:50:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:59.988Z</updated><title type='text'>CONTO XIX</title><content type='html'>&lt;p align="left"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-2.7.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0.26.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" height="307" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/320/image0.9.jpg" width="168" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-1.14.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" height="310" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/320/image0-1.4.jpg" width="170" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-2.7.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/102_0235.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Tinha acabado de nascer o sol quando a senhora Ana apareceu à porta trazendo na boca as palavras lamurientas da sua velhice. Minha mãe foi atendê-la.&lt;br /&gt;Estávamos todos na casa de jantar, a tomar o pequeno-almoço, com meu pai no topo da mesa a assumir a respeitabilidade de chefe de família, chapéu na cabeça.&lt;br /&gt;- Está lá fora a senhora Ana a clamar que o senhor Patrício ainda não ordenhou as vacas - disse minha mãe.&lt;br /&gt;- Mas o que está esse homem a fazer, a estas horas? - Perguntou com seus ares inquisidores de querer tudo a horas certas.&lt;br /&gt;- Eu não percebi bem o que ela disse... Deve haver novidade para aparecer tão cedo. Só se levanta lá para as onze.&lt;br /&gt;- Manda lá entrar essa gaja!&lt;br /&gt;A senhora Ana surgiu à porta da casa de jantar arrastando os pés, muito enrolada no seu velho xaile, prendendo-o com as mãos de raízes mortas sobre o peito seco e caído, com aspecto amedrontado por que se tratava de falar com o meu pai e ela tinha mais medo dele do que qualquer cão desconhecido sem açaime, ainda que raivoso.&lt;br /&gt;- Então, que está o senhor Patrício a fazer, que a estas lindas horas ainda não ordenhou as vacas?&lt;br /&gt;A senhora Ana ficou calada, cozida pelo medo que ardia dentro de si.&lt;br /&gt;- Vocês julgam que isto é alguma pensão, ou quê?&lt;br /&gt;- Está deitado, senhor Venâncio...&lt;br /&gt;- Isso já eu sei.&lt;br /&gt;- Não se levantou...&lt;br /&gt;- Vocês estão é a abusar - disse meu pai com a voz das condenações, dura como aço das espadas que ganhavam as batalhas antigas.&lt;br /&gt;- É costume dele levantar-se sempre muito cedo... - disse a senhora Ana a desculpar a falta e a tentar remediar a injusta acusação de meu pai.&lt;br /&gt;- Uma pessoa tem pena de vocês e depois cada um que se lixe.&lt;br /&gt;- Ele não fez de propósito...&lt;br /&gt;- Eu ponho tudo na alheta.&lt;br /&gt;A senhora Ana baixou os olhos, envergonhada.&lt;br /&gt;- Vai tudo para a rua que eu não estou disposto a alimentar calões - assegurou meu pai com as espadas justiceiras na voz e no olhar.&lt;br /&gt;A senhora Ana calou-se. Todos estavam calados. Mas era estranho que o Senhor Patrício ainda não se tivesse levantado àquelas horas tão tardias. Meu pai continuava a tomar o pequeno-almoço tirando, calmamente, da tigela, com a colher, as sopas amolecidas no café com leite.&lt;br /&gt;- O serviço todo atrasado - continuou no intervalo de uma mastigação cuidada - o leite ainda nas vacas, os bezerros sem mamarem, se calhar até já se soltou algum que mamou o leite todo e depois temos uma merda para comer.&lt;br /&gt;As crianças sentiram estranhos sabores e aromas nojentos nas palavras.&lt;br /&gt;- Os horários têm de ser cumpridos. Eu não admito descuidos, nem faltas de ninguém, e o Senhor Patrício já tem idade suficiente para saber isso. De mais a mais um homem nascido e criado no campo, que tinha alguma coisa de seu. Por isso é que ele perdeu tudo.&lt;br /&gt;- Estou farta de o chamar, mas ele não responde - esclareceu a senhora Ana tremendo medos interiores.&lt;br /&gt;- Teria o homem morrido? - Perguntou meu pai.&lt;br /&gt;- É preciso ver o que se passa. - Sentenciou minha mãe a rastejar com as palavras das resoluções de meu pai.&lt;br /&gt;- Eu vou lá ver - disse meu pai. E continuou muito calmamente a tomar o seu pequeno-almoço. Dentro de mim a ansiedade de saber o que se passara com o senhor Patrício misturada com o medo de tomar uma atitude qualquer. O senhor Patrício era o boieiro e tinha setenta e oito anos já feitos. Fora um homem com bastantes haveres, mesmo rico, segundo diziam pessoas do seu tempo e conhecimento, mas em pleitos judiciais, com as demoradas e custosas intervenções dos tribunais e advogados que falavam muito bem e tinham sempre razão, acabou por deixar ir tudo por água abaixo e ficou na miséria para ter, depois uma história muito bonita para contar às crianças.&lt;br /&gt;Vivia com a senhora Ana, abastada gozadora da vida enquanto pudera e mais ou menos da sua idade, que contava ter ido passar a lua-de-mel a Sintra, quando nova, com outro.&lt;br /&gt;Eu gostava muito de a ouvir contar os episódios da sua mocidade e sempre que tinha oportunidade perguntava-lhe :&lt;br /&gt;- Ó, senhora Ana, que idade tinha quando foi a Sintra?&lt;br /&gt;- Sei lá, menino, era muito nova e ainda não sabia o que fazia. Teria para aí uns vinte e cinco anos.&lt;br /&gt;- Era bonita?&lt;br /&gt;- Era nova. Quando a gente é nova a vida é sempre diferente. E os novos são sempre bonitos.&lt;br /&gt;- Foi passar a lua-de-mel com o senhor Patrício? - Perguntava eu convencido que as pessoas se casavam uma vez e ficam assim para toda a vida, mesmo que não se entendessem, como era o caso de meus pais que mais pareciam um cão e um gato em permanente desacordo.&lt;br /&gt;- Que ideia, menino! O Senhor Patrício nessa altura tinha mulher e filhos.&lt;br /&gt;- E não eram seus?&lt;br /&gt;- Eram da mulher dele pelo menos. Era rico. A mulher só o deixou quando ele ficou sem nada, quase no fim da vida. Ela foi viver com uma filha que está muito bem casada, com um polícia, em Faro. E como o genro tem muita autoridade pôs o velho a andar.&lt;br /&gt;- E não teve vergonha?&lt;br /&gt;- Quem tem autoridade não precisa de ter vergonha.&lt;br /&gt;- E depois? Foi a Sintra...&lt;br /&gt;- Fui, mas com outra roupa, um homem que fazia inveja a todas as mulheres. Até as da alta.&lt;br /&gt;- E foi interessante?&lt;br /&gt;- Se foi! Ele era um homem às direitas. Que naquele tempo ainda os havia assim. Delicado. Gentil. Os homens arruinavam-se por nós. Bons tempos!&lt;br /&gt;- Suspiros profundos da senhora Ana.&lt;br /&gt;- Fomos de comboio de Lisboa para Sintra. É uma terra muito linda, com bonitos palácios e tudo. Onde costumava ir a gente de qualidade passar a lua-de-mel.&lt;br /&gt;- Foi quando a senhora Ana se casou?&lt;br /&gt;- Quase. Que o casar não é tudo. Eu nunca me casei lá por esses registos ou igrejas como as pessoas fazem. E nunca me faltaram homens que me quisessem. E dos bons! Às vezes nem sabia como me desfazer deles.&lt;br /&gt;- Porquê? - Eles colavam-se às pernas e às ideias duma pessoa. E todos muito egoístas. Enquanto não conhecem bem uma pessoa eram todas delicadezas e considerações. Quando julgavam, que nos tinham nas mãos e podiam dispor de nós à sua bela vontade começavam logo com exigências. Mas tive uma vida muito bonita, lá isso tive! - Dizia a senhora Ana e ficava a olhar para as imagens que tinha dentro de si.&lt;br /&gt;- Como lhe ia contando, dessa vez que fui a Sintra, apanhamos um trem, assim como o do senhor Ferramacho, mas com dois cavalos que eram mesmo uma lindeza, e demos uma volta pela serra onde há jardins e lagos que nunca mais vi em parte alguma. Um sonho. O menino já tem sonhado com jardins muito lindos, daqueles que não há?&lt;br /&gt;- Já - disse eu com espanto a imaginar os jardins do Éden onde só as pessoas boas desta vida andam a passear na outra com música celestial por todos os lados e muita fruta sem bicho.&lt;br /&gt;- Pois ainda é mais bonito do que tudo o que o menino tem sonhado.&lt;br /&gt;Eu ficava, pasmado, a olhar para a senhora e para os trajes que a cobriam a pensar como teria sido ela aos vinte e cinco anos, com pasmo novo nascendo nos meus olhos. Acreditando e duvidando, ao mesmo tempo do que ela me dizia. A pensar que eu talvez nunca chegasse a conhecer Sintra por ficar ainda além dos meus sonhos, no passado dela. A pensar que talvez não pudesse falar de terra tão bonita com o mesmo entusiasmo com que a Senhora Ana o fazia por que ela tinha-me a mim para a ouvir e eu talvez nunca tivesse ninguém interessado no entusiasmo das minhas recordações maiores do que os sonhos dos outros meninos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O meu pai dizia uma vez e outra &lt;em&gt;“Só me faltava que tivesse vindo pegada ao senhor Patrício esta grande puta ! “&lt;/em&gt; e como ele falava assim dela eu tinha medo de acreditar em certas coisas que me contava embora gostasse muito de a ouvir. E ficava a pensar que, se Sintra era tão bonita como ela dizia, valia a pena ter sido puta, a puta que meu pai asseverava, para lá ter ido em lua de mel sem casamento com um homem que fazia inveja às outras mulheres e, intimamente, desejava ser um homem assim para uma mulher de quem eu gostasse nem que fosse só durante um minuto. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Gostava muito da Senhora Ana por que ela tinha muitos defeitos e o sabia, nunca afirmando qualidades que eu reconhecia nela. Era sempre muito delicada comigo e até para o meu pai embora ele estivesse sempre de maus modos quando falava com ela. E como o pai gostava muito de mulheres - toda a gente dizia isso em coro com minha mãe - teria gostado da senhora Ana se tivesse vivido no mesmo tempo. E teria ido a Sintra com ela, em lua-de-mel. Era isso que eu via no sorriso da senhora Ana enquanto meu pai ralhava com ela. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Talvez o meu avô a tivesse beijado, desejado. Ou possuído, talvez! Agora a senhora Ana estava velha, como os sapatos que servem para uma pessoa continuar descalça mesmo com eles nos pés, e levava o dia inteiro ao sol porque tinha sempre frio. Sobre os ombros o mesmo xaile roçado, muito velho e triste - triste como a pobreza velha - o que será ser velho? Pensava eu, custará muito ser velho? , A tristeza amarga da velhice com sabor a derrota, com os outros a terem pena, a pena da pena dos outros neles, a zangarem-se sempre &lt;em&gt;“isso está mal ““já não sabe o que faz “ “é melhor estar quieto”&lt;/em&gt; e muitas outras frases da vergonha de toda a gente. Custará muito ser velho? - Pensava eu uma vez e outra. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Nos ombros velhos da senhora Ana o mesmo xaile que fora de muitas cores alegres e agora não tinha cor nenhuma. Sabia-se que era um xaile porque ela chamava isso àquele trapo que prendia ao peito onde enrolava as mãos velhas, como raízes secas e mirradas, pelo sol, fora da terra. E eu a pensar que tinham sido aquelas mãos que, o homem que fazia inveja a todas as mulheres sentira quentes nas suas, que tocaram nas flores e as levaram com seus aromas de gostar de amar aquela cara velha, riscada pelo tempo, agredida pelas pessoas. Cara de antiguidades carregada sobre os ombros dobrados para a frente, para o futuro de quem já não tem futuro. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-114710733464300006?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/114710733464300006/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=114710733464300006' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/114710733464300006'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/114710733464300006'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2006/05/conto-xix.html' title='CONTO XIX'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-114702006124774590</id><published>2006-05-07T17:32:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:59.909Z</updated><title type='text'>CONTO XVIII</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-4.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/image0-4.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Finalmente tínhamos chegado ao fim da explicação da morte, o capítulo ia-se encerrar com o último choro em presença do Venâncio Figueira estendido de braços e mãos sobre o peito no seu leito de morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Minha mãe chorava para explicar melhor como tinha morrido meu pai.&lt;br /&gt;- Não adianta nada chorar - murmurou meu cunhado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Tanto que um patife daqueles a fez sofrer e ainda está a chorar por ele !&lt;br /&gt;Eu não disse nada. Apeteceu-me esbofetear a boca donde saía a estrumeira das palavras dele. Como poderia ele entender suficientemente que minha mãe o amara a seu modo ? Temendo-o em cada gesto, em cada palavra, em cada pensamento. Em cada infidelidade que ele cometia. Apeteceu-me dizer-lhe:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Covarde, infamemente covarde. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Que, em vivo, nunca teria a coragem de proferir tais palavras porque seria um genro abatido a tiro, a sangue frio.&lt;br /&gt;Mas não disse nada. Apeteceu-me fechar aquele comércio de morte. Gritar a todos que meu pai não precisava deles para estar morto. Que lhe era indiferente que se devorassem uns aos outros com sorrisos de ódios.&lt;br /&gt;Meu pai sempre soubera que os outros morriam e sempre resolveu esses problemas com a serenidade necessária a um acto natural. Sem sentimentos desnecessários. Sem desumanidades necessárias.&lt;br /&gt;Sem representação teatral.&lt;br /&gt;Sem ouvir.&lt;br /&gt;Se ouvisse as palavras chorosas de minha mãe com relevos para as suas qualidades impossíveis teria dito:&lt;br /&gt;- E as vezes que me injuriaste ?&lt;br /&gt;Mas ali só existia a morte. A sua morte serena e tranquila. Repousante. Definitiva.&lt;br /&gt;E o saque dos outros. Terrível. Luta acerada de abutres esfomeados. Provisório para eles e para os outros. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-114702006124774590?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/114702006124774590/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=114702006124774590' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/114702006124774590'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/114702006124774590'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2006/05/conto-xviii.html' title='CONTO XVIII'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-114691626172610121</id><published>2006-05-06T12:41:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:59.815Z</updated><title type='text'>CONTO XVII</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/100_0003.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/320/100_0003.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Minha irmã mais velha chamava-se Rosália e tinha mais quatro anos do que eu. Já era uma senhora e tinha muitos pretendentes que meu pai trazia afastados devido aos seus maus modos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Qual será o rapaz que não se afasta da moça! - Exclamava minha mãe. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Luís tinha doze anos e Natal de Jesus ia nos dez. Ambos andavam na quarta classe pois o Luís era um bocado duro para aprender. A professora, senhora de muito respeito e educação que até punha pó de arroz cheiroso na cara, batia-lhe com a cabeça no quadro preto e ele deitava muito sangue pelo nariz. Fumava porque fazia bem, segundo opinião de pessoas mais velhas, e a minha mãe comprava-lhe onças de tabaco para o tratamento. Eu fumava às escondidas e só deitava sangue pelo nariz quando o meu pai me apanhava. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Minha irmã Clara começara há pouco a dar os primeiros passos. Tinha quinze meses, era muito gorda e mexia em tudo. Chamávamos-lhe o descuido mas a minha mãe não gostava nada dessa alcunha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Meu pai era para toda a gente o Senhor Venâncio e minha mãe a senhora Clarisse mas para os documentos oficiais meus pais eram também Alves Figueira e minha mãe Ramos Figueira. Figueira era o apelido de meu pai que vinha desde o tempo das antiguidades como diziam os velhos que sempre tinham conhecido os Figueiras. Isso era motivo de orgulho para toda a família. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Morávamos na Quinta dos Lobos Velhos, mas o meu pai possuía ainda a Quinta da Cerro Alto, a da Figueiral e a das Andorinhas. E outras courelas herdadas por minha mãe e às quais ele não dava importância porque eram pequenas e tinham vindo do meu avô materno, lavrador de meia tigela e pessoa de muitos reumatismos sem esperança de cura, que morrera de constipação estival.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Bebia muito para estar distraído. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O que meu pai possuía e o fazia rico, viera tudo de meu avô Alberto Figueira, o das barbas do retrato, que andava a maior parte do dia e às vezes, à noite comigo, nos sonhos e tudo, por que eu gostava muito dele e tinha o mesmo nome acrescido do apelido Ramos, por parte de minha mãe. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Uma sacanice de meu cunhado - dizia meu pai que, no Registo Civil indicara apenas o nome de meu avô para mim.&lt;br /&gt;- E o apelido da mãe? - Perguntara meu tio e padrinho a querer sobrecarregar-me de nomes. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Assim, enquanto eu me chamava Alberto Ramos os meus irmãos eram todos Ramos Figueira o que dava a impressão, à primeira vista, que não éramos da mesma família. Ser duma família qualquer cria sempre responsabilidades. No Liceu todos os professores e até os meus colegas me chamavam Ramos o que me causava um certo desgosto. Sendo filho do senhor Figueira e sendo por isso um Figueira da melhor madeira, um nome de tantas tradições, estava a ser perdido em mim e, como depois de minha irmã era eu o mais velho, estava a ser uma espécie de morgado com o nome trocado e perdia uma tradição tão histórica assim do pé para a mão. Diziam até que houvera nos meus antepassados um homem tão forte que matara à paulada uma jibóia de proporções gigantescas, como convém a actos de tanta heroicidade. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Durante muito tempo andei com a preocupação de fazer qualquer coisa que ainda ninguém tivesse feito para que caíssem sobre mim as atenções dos populares e a admiração dos restantes elementos da família. Queria ser herdeiro de qualquer coisa. Mas não encontrei nada que fosse capaz de me elevar a uma posição de relevo. A não ser as corridas de burro com as inevitáveis quedas que ocultava para defesa do meu prestigio e do bom nome de uma família de cavaleiros apeados. E apeados por não me constar que tivesse havido na família cavaleiros de cavalos das lendas que andassem em justas e torneios defendendo damas agravadas. É natural que não houvesse damas agravadas que necessitassem da interferência dos Figueiras. Também é natural que tenha havido Figueiras a desagravarem damas mas nada havia em casa de meus pais que lhes fizesse referência. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O burro, esse sim, foi sempre o animal preferido para as cavalgadas de meu avô e de meu bisavô. Só meu pai, por desentendimentos antigos com esse nobre animal se deslocava, habitualmente, em bicicleta dumas quintas para outras tendo quebrado, por um lado, uma tradição de família e reforçando-a pelos outros.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O meu avô nunca casara. Talvez por falta de disposição. Ou de vocação. Ou por outras razões só dele e não explicadas enquanto vivo. Ele não dava explicações dos seus actos. Bastavam-lhe só os actos que eram, quanto a ele, a melhor explicação. Vivia com a senhora Clarimunda na Quinta dos Lobos Velhos, e tinha minha avó na quinta do Cerro Alto que ficava a seis quilómetros de distância pois ela tinha um feitio muito independente, senhora do seu nariz, apesar de ser analfabeta, e fazia o que lhe dava na real gana. Viera muito nova para criada da casa e devia ter sido muito bonita para seduzir meu avô que era pessoa de bom gosto e de muito apetite que logo nela fez um filho, mais tarde meu pai e herdeiro universal de meu avô, que nunca deu nenhum filho à senhora Clarimunda embora gostasse muito dela e fizesse todos os possíveis. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Quando morreu deixou, à senhora Clarimunda o usufruto da Quinta das Andorinhas o que foi sempre uma espinha atravessada na goela de meu pai. Que só a tirou quando ela morreu. Dela, em minha casa não se podia falar, porque era proibido em último grau, e o meu pai, quando falava era sempre com bastantes arrelias na voz e muitas pragas à mistura para ajudar. Eu gostava dela pois também o meu avô  gostara e os sentimentos dele estavam um pouco em mim. Meu avô sabia as suas razões. Os bons motivos que o levaram a viver, uma vida inteira com a senhora Clarimunda e não com a minha avó. Isso causava-me uma certa estranheza só dissipada quando mais tarde me explicaram a verdade que, em casa, toda a gente cultivava, muito religiosamente, no segredo. Coisas que as crianças nunca entendem bem para que os adultos possam ser umas pessoas respeitáveis.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-114691626172610121?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/114691626172610121/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=114691626172610121' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/114691626172610121'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/114691626172610121'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2006/05/conto-xvii.html' title='CONTO XVII'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-114080733050253430</id><published>2006-02-24T18:51:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:59.577Z</updated><title type='text'>CONTO XVI</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-8.1.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-8.1.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-8.1.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-8.1.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/image0-8.1.jpg" border="0" /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Tinha pssado um mês no calendário quando o marquês voltou a encontrar o pai:&lt;br /&gt;Minha mãe viu-me a brincar com Leão, o cão de guarda da quinta, muito satisfeito da minha vida e julgou que ainda não tivesse falado com o meu pai sobre o meu fracasso dos estudos.&lt;br /&gt;- Já falaste com o teu pai?&lt;br /&gt;- Sim, mamã.&lt;br /&gt;- E o que disse ele?&lt;br /&gt;- O costume.&lt;br /&gt;- Não te bateu?&lt;br /&gt;- Ainda não. E se me bater fujo de casa.&lt;br /&gt;- Tem juízo, rapaz. E o que fará um moço destes fora de casa como um vadio sem família?&lt;br /&gt;- Ora! Vou guardar gado ou servir ou qualquer coisa.&lt;br /&gt;- Depois sou eu que tenho de aturar o teu pai.&lt;br /&gt;- Fique descansada que me encarregarei de resolver os problemas com ele.&lt;br /&gt;- Isso é muito bom de dizer, lá isso é. Mas eu é que tenho de o ouvir. A dizer-me que sou a culpada de tudo. O que eu sofro com isto!&lt;br /&gt;Minha mãe era especialista em sofrer por ela e pelos filhos e na inocência da nossa idade achávamos piada que ela sofresse tanto como dizia. E ainda tinha tempo para cantar e para rir. A mim não me interessavam as culpas que ela tivesse ou que meu pai dissesse. Quando ele me batia, ou se zangava comigo, com o seu ar feroz, assustador, como se fosse um carrasco de crianças a vingar-se de ser um homem, minha mãe nunca intercedia a meu favor e eu acabava por me encontrar tão abandonado como barco naufragado em mar alto sem velas e sem remos.&lt;br /&gt;- Não tem juízo nenhum este moço! - Exclamava ela com as mãos, ambas postas na cabeça, quase no fim da testa que era o local das suas dores.&lt;br /&gt;Se aos catorze anos tivesse o juízo das dores de cabeça lá ia levada pelo tempo a vontade grande de brincar.&lt;br /&gt;Quem tinha perdido o ano era eu e ninguém tivera culpas disso. Nem os professores que tinham procurado que me interessasse pela matéria, nem eu porque não tivera interesse nisso. Não me interessava estudar. O meu avô também nunca andara a estudar e viveu durante setenta anos. Sabia ler e escrever e diziam até que era uma pessoa muito entendida em leituras. Que até fazia versos para que os outros cantassem.&lt;br /&gt;Cantar no tempo do meu avô ajudava a esquecer. Cantar seria no meu tempo uma boa profissão, muito bem paga e as pessoas ouviriam cantar sem estado de espírito, sem alegria, sem nostalgias nenhumas, sem esperanças nenhumas. Só porque tinham pago o bilhete para ouvir. Seria uma espécie de fabricação de alegrias ouvidas com tristezas e penas.&lt;br /&gt;Não me interessava estudar. Tanto me fazia ter perdido o ano como não. Não diria nada a meu pai pois a vontade dele seria, certamente, que eu continuasse. Para que discutir com ele o que depois iria ser o que ele quisesse sem apelo nem agravo? E eu continuaria até que meu pai visse com os próprios olhos ser desnecessária tal teimosia. Com catorze anos não podia ser responsável por nada. E iria fazer os possíveis para que toda a vida me considerassem da mesma maneira para me ser mais fácil viver. As pessoas que eu conheço andam muito convencidas de que são importantes para que o mundo ande certo mas quando morrem o mundo continua a andar e ninguém dá pela sua falta. Durante uns tempos a família ainda fala deles mas depois esquecem-nos. Só no dia de finados é que vão ao cemitério com umas caras muito adequadas à ida para demonstrarem aos vivos que não se esqueceram dos mortos.&lt;br /&gt;Era isso que os livros ensinavam e as pessoas decoravam para repetirem em datas e ocasiões adequadas.&lt;br /&gt;No dia de finados choravam os mortos, das tantas às tantas, na hora determinada para os prantos e lutos renovados.&lt;br /&gt;No Carnaval brincavam na rua e atiravam papelinhos coloridos uns aos outros e sacos com cinza. Eu julgava que era farinha e só vi que não era quando apanhei com um na testa que se partiu e quase me cegava. Enquanto todos acharam muito engraçado, muito certeira a pontaria, muito natural a minha indignação. Pulhas! A vontade que me deu nesse momento foi ser capaz das maiores façanhas, daquelas que os guerreiros faziam de desbaratar um campo de inimigos à espadeirada sem a mais pequena dificuldade. Mas era uma criança e não tive coragem de ter a força desses gigantes que vinham no livro de história. Se eles sabiam que uma criança não se podia defender a obrigação deles era respeitá-la. Grandes canalhas!&lt;br /&gt;No Natal as pessoas festejavam, por ser velho costume, com a família, o nascimento do menino Jesus e, por causa dele nascer todos os anos, havia até uma certa compreensão de uns para os outros. O meu pai nesse dia era um pouco diferente e, se não fazia bem a ninguém, também não impedia que os outros o fizessem. Eu achava que devia ser Natal durante todos os dias do ano por que todos os dias nasciam meninos pobres que não tinham culpas nenhumas e que muitos deles estariam condenados a morrer, um dia, crucificados na vida sem um lenho ao menos que lhe servisse de cruz.&lt;br /&gt;Estudar para aprender desumanidades ou para ter boas notas não me interessava mesmo nada. Se antes dissera ao meu pai que preferia estudar em lugar de trabalhar no campo agora a minha opinião era um pouco diferente. Já preferia deixar a minha sorte ligada àquelas gentes rudes um dia e outro presas à condição de escravos, mas que eram verdadeiras. Que não riam nem choravam por terem aprendido nos livros. Fui para a sala onde estava o meu avô que não me disse nada com os seus lábios de retrato. Apenas olhou para mim com os seus olhos de me seguirem sempre para qualquer lado da sala para onde eu fosse. Sem uma palavra de recriminação por eu ter perdido o ano. Ele compreendia perfeitamente os problemas porque também a si lhe interessara mais a vida do que os estudos. É certo que no seu tempo não se estudava tanto mas, pelos vistos, nem era preciso estudar para que as pessoas fossem melhores umas para as outras. Isso provava-me que estudar só servia para tornar as pessoas ainda piores embora para o meu pai fosse importante a consideração dos canudos. Meu avô olhava para mim com os seus olhos de não ser compreendido, com os seus olhos de olhar definitivamente e sempre da mesma maneira para todos, excepto para mim. eu pai regressou ao pôr-do-sol. - Explica-me lá como reprovaste - disse-me&lt;br /&gt;Trazia na mão uma vara de oliveira da grossura do dedo polegar. Dedo grosso e sapudo.&lt;br /&gt;Qualquer que fosse a minha desculpa de nada serviria pois a vara era a prova evidente da sua determinação. Pensei em fugir e tive medo que as pernas me atraiçoassem as ideias.&lt;br /&gt;- Então? - Perguntou com os seus ares inquiridores vizinhos da vingança justiceira dele.&lt;br /&gt;Encolhi os ombros. Até metê-los dentro do mesmo corpo onde estava guardado o medo.&lt;br /&gt;A vara, nas mãos de meu pai, começava a bailar a insatisfação da inércia. - Se eu fosse órfão! - Pensei.&lt;br /&gt;A vara caiu-me sobre as costas gravando na pele as raízes da dor rasgando a carne, com picadas de calor, a arder cada vez mais. Depois, entrei, oficialmente, de férias.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-114080733050253430?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/114080733050253430/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=114080733050253430' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/114080733050253430'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/114080733050253430'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2006/02/conto-xvi.html' title='CONTO XVI'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113804291342788591</id><published>2006-01-23T18:51:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:59.332Z</updated><title type='text'>CONTO XV</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;A Dina viria a casar em Olhão, num casamento a que obrigaram o marquês a ir, para ficar na fotografia e toda a vida comentarem o meu olhar triste, de ver a Dina com outro . O homem dela !. Na verdade há muito que o marqês deixara de amá-la, o que aconteceu quando a almofada passou a ter o aroma só de almofada, corada no ribeiro da Fonte Santa, e do ferro de engomar aquecido no carvão. Foi nesta memória que o pai do marquês justificava o seu:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O meu pai estava aborrecido comigo só porque reprovara no Liceu. Porque não era capaz de repetir as lições dos livros sensaborões e pesados para apanhar notas que me guindassem na sua consideração ou me levassem ao quadro de honra para depois se gabar aos amigos :&lt;br /&gt;- O meu filho é um granade aluno !&lt;br /&gt;Dessa não se gabava ele. Se, estudar, conhecer as pessoas, os seus defeitos encantadores, gostar das pessoas e das coisas, gostar do sol, gostar de brincar até esquecer tudo eu poderia garantir-lhe que ele seria o mais honroso pai de Venda Nova. Gabar-se da minha escravidão, isso nunca . Ele tinha razões. As suas razões. Mas eu tinha as minhas e essas é que seriam realmente importantes para mim, conforme ficariam afirmadas por um passado vergonha dele e aceitação minha excluidas todas as filosofias.&lt;br /&gt;Tinha catorze anos e essa idade era mais importante que todos os conceitos velhos de meu pai, com quem não estava de acordo. Embora ele os tentasse impôr com a fúria das suas crenças.&lt;br /&gt;Era injusto comigo. Era injusto com toda a gente que precisava dele, especialmente os trabalhadores. Precisava mais deles do que julgava. Trinta anos depois lamentar-se-ia que não tinha quem quisesse trabalhar no campo e que as terras não dariam rendimentos mas canseiras e sofrimentos só porque o progresso se impusera com as suas garras a estrangular as antiguidades transmitidas de pais a filhos.&lt;br /&gt;No tempo do meu avô as coisas eram sem diferentes. Havia sempre quem trabalhasse e as pessoas faziam-no com gosto embora os trabalhos do campo já fossem duros.Mas ele deixava os trabalhadores à vontade para que cada um se julgasse um pouco dono daquilo que, afinal, não lhes pertencia nem nunca lhes pertenceria.&lt;br /&gt;Segundo contavam os trabalhadores mais antigos meu avô costumava dormir quando os trabalhos se acumulavam. Os trabalhadores resolviam à sua maneira o que mais convinha e, quando acordava, metade dos problemas já estavam resolvidos e bem por que as pessoas entregues a si próprias se tornavam mais conscientes. Muito mais do que quando eram compelidos a fazer as suas obrigações, sem que as compreendessem, com a ameaça de chicotes silvando torturas no pensamento ou despedimentos para atirar a família à miséria mesquinha de morrerem inativos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113804291342788591?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113804291342788591/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113804291342788591' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113804291342788591'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113804291342788591'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2006/01/conto-xv.html' title='CONTO XV'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113749935750208923</id><published>2006-01-19T17:50:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:59.264Z</updated><title type='text'>Dina</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;A Dina era de Olhão, das açoteias, esteiras e figos a secarem. Linda como nenhuma outra mulher de 18 anos, pronta e comprometida ao casamento. Era miúdo quando a paixão tocou o marquês empoleirado no cimo de uma oliveira. Imaginava-se Tarzan, Dina a Jane. Deslizou pela corda e quando tocou o chão a costa da mão esquerda, em dor, apresentava um corte na pele queimada até ao nervo. A paixão era maior acompanhada do aroma da natureza, da água fresca deslizando suavemente pelos regos da terra e dos frutos silvestres, das romãs fendidas, das malvas lá no fundo da horta muito perto dos marmeleiros. Na noite agitada o marquês amou, correndo o sonho com uma lâmina de corte fino, de água pura entre valados, de candeia que alumia o coração apaixonado. Depois a Dina foi embora, deixando o seu perfume na almofada que o marquês abraçaria todas as noites, até que a almofada cheirou apenas a almofada e a paixão se evaporou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113749935750208923?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113749935750208923/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113749935750208923' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113749935750208923'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113749935750208923'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2006/01/dina.html' title='Dina'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113615547107782540</id><published>2006-01-01T22:30:00.001Z</published><updated>2006-11-09T18:48:59.133Z</updated><title type='text'>CONTO XIV</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-8.0.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/image0-8.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Simão Carolo tinha a taberna em frente da Farmácia. Era um optimista casado com Lúcia Zarolha a do lugar de frutas e hortaliças na praça de Venda Nova e muita vaidade por ter os melhores nabos da região, trazidos directamente do lavrador. Que, neste caso, tratava-se do meu pai, o senhor Venâncio, abastecedor também de outras senhoras da terra. E dizia-se muita coisa sendo minha mãe a que mais falava.&lt;br /&gt;A Zarolha tinha um olho de vidro e, quando olhava para alguém, fixava o olhar tão insistentemente, com aquele brilho de cristal derretido que o Ratinho se apaixonou por ela quando regressou de Espanha e lá fora molhar a goela com meio litro de vinho numa garrafa que só levava três decilitros.&lt;br /&gt;Amor traiçoeiro e não correspondido desde aquele dia em que ali entrou pela primeira vez.&lt;br /&gt;- Meio litro - dissera.&lt;br /&gt;- Do tinto ou branco ? - perguntara ela.&lt;br /&gt;E o olhar cravado nos sentidos dele.&lt;br /&gt;- Tinto.&lt;br /&gt;Habitualmente bebia branco. Mas as palavras dela pareciam aconselhar-lhe o tinto.&lt;br /&gt;Ela a olhar para ele sem desviar os olhos, sem fechar o olho que restava, agressiva e prometedoramente metido na alma do Ratinho a roubar-lhe o sossego do seu instinto e a liberdade dos pensamentos vagabundos.&lt;br /&gt;Desde esse dia era na taberna que estava sempre. Esperando ouvir dela uma palavra que o incitasse a uma declaração do seu amor inflamado. Mas nada sucedeu se não aquele olhar a continuar caido sobre as ideias do Ratinho.&lt;br /&gt;O Simão sabia da paixão dele, pela mulher, mas, como era inofensivo e deixava ficar na taberna o dinheiro que tinha, nunca se impôs. Nem sequer se assustou ao ponto de pedir desforço de tal paixão para conserto da sua honra aos olhos dos olhos.&lt;br /&gt;Quando o Ratinho deixou ali o último tostão da herança o Simão aproveitou&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;-se dele para lhe trazer a água do poço e, por esmola segundo dizia, dava-lhe uma sopa e um copo de vinho do pior.&lt;br /&gt;- Temos de ajudar estes desgraçados. - dizia a torto e a direito para fazer valer a sua caridade.&lt;br /&gt;E para que dissessem que cumpria as suas obrigações como político atento, pois era cabo de ordens bastante considerado e, segundo opinião de alguns, informador do regedor, o Senhor Ferramacho, que por sua vez também era muito considerado e informador de quem estava por cima dele, que também informava quem estava por cima de todos.&lt;br /&gt;As pessoas diziam que a politica era assim uma coisa de não se saber bem e que o senhor prior também era um grande politico. Ele fazia que não era nada com importância e continuava a sua ladainha em latim e quando as pessoas morriam todos ficavam muito contentes com a encomendação do morto.&lt;br /&gt;- São umas santas palavras que ele diz ! - Comentavam as pessoas. - Nunca houve morto que voltasse ! Aquilo é que é encomendação bem feita.&lt;br /&gt;Ao lado da taberna, numa casa baixinha caiada de branco com frisos vermelhos, morava dona Branca Farroba casada segundo todas as boas tradições com o Belmiro Farroba, industrial de cordoaria artesanal doméstica com saidas para o exterior, que tinha o lábio superior rachado junto à prega feita pelo nariz e descendo até aos dentes. Desse matrimónio existiam cinco filhos, cinco lindas crianças descalças, que o sol lambia abundantemente. Nunca constou que estivessem doentes, demonstração que a natureza estava certa naquelas vidas tão incertas.&lt;br /&gt;- Quando tiverem alguma coisa é logo para morrer - diziam as pessoas experientes.&lt;br /&gt;O certo é que eles não morreram e que eu iria encontrá-los mais tarde com uma situação de causar inveja a muita gente.&lt;br /&gt;- Sou artista de circo - dissera-me um quando o encontrara numa terra das suas peregrinações.&lt;br /&gt;- O que fazes ?&lt;br /&gt;- Forças combinadas.&lt;br /&gt;- Com quem ?&lt;br /&gt;- Com o meu irmão.&lt;br /&gt;Foi uma alegria para mim tê-lo encontrado.&lt;br /&gt;Deu-me alegria a confiança dele na vida. As grandes lições estão, afinal, naqueles que não estudaram.&lt;br /&gt;Dona Branca Farroba e o marido eram excessivamente morenos, quase torrados, semelhando mestiçagem, havendo até muita gente que dizia que eles eram assim escuros porque nunca se lavaram. Mas isso nunca foi devidamente comprovado.&lt;br /&gt;Como os filhos fossem de tez branca, que só o sol mais tarde tostaria, diziam que cada um era filho de seu pai, havendo portanto um pai legal e cinco ilegais. O que também nunca foi comprovado para bem das honestidades, da moral e das próprias crianças que se veriam a braços, cada uma, com vários pais.&lt;br /&gt;Vivia o casal, não obstante o que se dizia, na mais santa concórdia e nunca houve quem melhor se desse em Venda Nova ou arredores. Se Dona Branca não era rica e de altas virtudes hereditárias, para o marido era pelo menos a mais virtuosa da terra. Nunca ele diria a ninguém, como tantos, quando falasse das sãs e honestas senhoras :&lt;br /&gt;- Esta eterna dúvida !&lt;br /&gt;Belmiro Farroba industrial de cordas feitas à mão e um dos principais consumidores de tinto não duvidaria nunca de sua esposa.&lt;br /&gt;- Tinhamos de o trazer às costas para casa - dissera-me o artista de forças combinadas.- O gajo nem podia andar.&lt;br /&gt;- E não custava ?&lt;br /&gt;- Punheta, se custava ? E às vezes o gajo lembrava-se de se ir embebedar para longe de casa. Ia eu e o meu irmão. Púnhamos o tipo no meio. O gajo tinha a mania de cair para um lado, era para o meu lado, eu dava-lhe um encontrão " Eh pá aguenta-te nas curvas " e lá conseguiamos trazer o bicho para casa.&lt;br /&gt;Dona Branca tinha uns cabelos muito pretos e lisos, com brilhos estranhos que lhe davam um aspecto de originalidade nunca conseguida embora imitada por muita senhora. Estavam divididos ao centro e caidos sobre os ombros, metade para a frente e outra metade para trás, sempre soltos e ondulando no seu andar de rainha. Tinha olhos pretos e expressivos, muito abertos, para que o sol e o mundo neles se reflectissem, sempre a olhar para a frente como se quisesse apanhar com eles o futuro cravado no horizonte longinquo e a desconhecerem, por ínfimas, as coisas que perto se achavam. O lábio inferior, grosso , enorme, original, virava-se para baixo como se estivesse derramado a escorrer contornos infindáveis, estendendo-se preguiçosamente até quase alcançar o queixo pequenino o que lhe dava um ar de exotismos diversos,estranhos e risíveis. Com um sorriso trocista de zombar de tudo o que era mesquinho, fútil, pequeno. O que era dos outros.&lt;br /&gt;Era pobre como ninguém. Sem medo de ser mais pobre ainda. Mas tinha umas maneiras tão refinadas, tão aristocráticas, tão soberanamente altaneiras que, em Venda Nova, quase ninguém as entendia. Usava uns trajes muito usados e até, segundo algumas opiniões, um pouco arriscados para a época que se vivia, pois as pessoas demasiadamente agarradas à tradição recusavam-se, teimosamente, a aceitar o progresso imposto por Dona Branca com sua blusa leve, vaporosa de farrapos coloridos, que lhe mostrava bocados fartos de pele acobreada dos braços, dos ombros, das costas e do seio, desabotoando-a ainda para mostrar melhor a linha divisória dos peitos bamboleantes com o seu caminhar airoso de chinelas velhas arrastadas nos seus pés pequeninos e morenos com perfumes de poeiras.&lt;br /&gt;Quando passava na rua Direita, a única de Venda Nova, por sinal bem tortuosa, começando por uma curva apertada e acabando noutra, parecia uma rainha saida de seu palácio rebolando as ancas fartas num bailado fofo de carnes doces e quentes com aromas de instintos, com os peitos rebeldes a quererem sair pela coçada blusa, sempre a oscilarem dum lado para o outro e de cima para baixo.&lt;br /&gt;Quando alguém perguntava a Dona Branca se os filhos eram todos do mesmo pai ela respondia a rir, mostrando cara de muito zangada :&lt;br /&gt;- Mas que exagero ! Sempre me fazem cada pergunta ! E que importância tem isso para vocês ? Ou para as crianças ? O que interessa é que os meus filhos nasceram , como nascem todas as crianças e que são saudáveis. Não é isso o importante para elas e para mim que sou mãe ?&lt;br /&gt;As pessoas não diziam nada.&lt;br /&gt;Ela era, para todos, fácil. Compreensiva e acessível. Partilhada sem zaragatas. Mantendo sempre o seu ar distinto e dificil. E ausente.&lt;br /&gt;Belmiro Farroba andava sempre com um molho de pita debaixo do braço, fazendo corda enquanto palmilhava a Rua Direita dum lado para o outro, com pequenos descansos na taberna do Simão para molhar a goela. Acreditava na fidelidade da mulher e alto e bom som clamava as suas crenças afirmando que casara com uma verdadeira senhora.&lt;br /&gt;- Ela não liga importância a isso - dizia o Farroba torcendo e encaneando a pita com a vaidade de ser um especialista em trabalhos de corda e um industrial honesto e cumpridor.&lt;br /&gt;Entre dois copos continuava a explicar:&lt;br /&gt;- Seria a mulher mais virtuosa de Venda Nova se não lhe dessem aqueles malditos ataques. Mas não me quer ao pé de si para não me fazer mal. Coitada ! Arranhava-me sempre como se fosse uma gata bravia. É da doença. Quando ela está assim nem vou para casa.&lt;br /&gt;A corda nas suas mãos dançava um bailado rodopiando em convulsões estranhas para cair aos seus pés inanimada.&lt;br /&gt;- A gente vai-se habituando a tudo - concluia com a sua filosofia de aceitação das realidades para que os sonhos não voassem desnecessáriamente. Para que ficassem presos nas cordas e nos seus pensamentos.&lt;br /&gt;Em certas ocasiões tapava-se Dona Branca com um velho xaile espanhol, de cores desbotadas, quase até ao nariz.&lt;br /&gt;- Para não criar desejos nos homens porque eles são todos uns pecadores e a carne é uma tentação - dizia ela.&lt;br /&gt;Andava menstruada.&lt;br /&gt;Depois, como uma flor aberta para o sol, aparecia novamente na rua com os seus trajes leves mostrando as carnes para as tentações de todos os pecados nascendo e ficando nos homens de Venda Nova que tinham o terrível hábito de pecar.&lt;br /&gt;O Farroba gabava-se que não havia ninguém na Vila nem fora dela que fosse mais completo do que ele. Que cortava as folhas das piteiras e as ripava com todos os cuidados e preceitos .Que fazia as melhores cordas da região.&lt;br /&gt;Meu pai comentava :&lt;br /&gt;- Uma merda de cordas !&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113615547107782540?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113615547107782540/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113615547107782540' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113615547107782540'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113615547107782540'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2006/01/conto-xiv_01.html' title='CONTO XIV'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113458380156683255</id><published>2005-12-14T18:09:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:58.981Z</updated><title type='text'>CONTO XIII</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-5.1.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/image0-5.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Vila Nova de Cacela era Venda Nova, rua única por onde passava o progresso, tendo o Center Business Distrit uma localização e designação precisa &lt;strong&gt;as quatro estradas.&lt;/strong&gt; &lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Havia em Venda Nova cinco doutores: três de medicina que ajudavam, o melhor que podiam, os doentes a morrer, um de farmácia que tinha na parede um copo de pé alto e uma cobra enroscada e um de leis que fazia zaragatas e depois acabava com elas, o mais legalmente possível, em tribunal.&lt;br /&gt;O doutor Pardelhas era médico, velho, não trabalhava, andava sempre com frio e uma gabardina e não tomava medicamentos para morrer de velhice. Vivia com uma governante, por que nunca casara. As pessoas diziam que dormia com ela por uma questão de hábito antigo.&lt;br /&gt;O doutor Neves era médico do partido, cobrava quotas mensais, pontualmente, há muitos anos e ficava aborrecido quando alguém aparecia doente. Tinha vindo de fora e durante muitos anos manteve-se solteiro e com umas mãos muito brancas e lavadas por fora pois, como tinha medo dos contágios, lavava-as sempre antes e depois de observar os doentes. Era muito mariola, segundo diziam, porque quando apalpava a barriga das senhoras punha-se com os seus olhos gulosos e esfomeados a olhar para as partes mais íntimas e de serviço caseiro. As senhoras sentiam que as mãos dele deixavam de ser de médico do partido para se tornarem sensuais, preguiçosas e lentas, descaradas, nos movimentos com que procurava despertar nelas ideias pecaminosas. Mas as senhoras como eram decentes e até se tinham lavado por baixo não diziam nada e evitavam ir à consu1ta com desculpas de que ele não acertava nas doenças e queria acertar noutros sítios muito mais perigosos. Foi perdendo, a pouco e pouco, a clientela até ficar reduzido ao fraco ordenado que lhe vinha do exercicio do partido.&lt;br /&gt;Porém, uma cliente ficou para sempre.&lt;br /&gt;Chamava-se ela Felismina Amendoeira Silvestre e vivia num palacete que tinha umas ameias pintadas de vermelho com sua mãe Dona Violante Fagundes Silvestre, viuva de um rico armador que começara a sua vida de pé descalço e com um pequenino barco de pesca, que também servia para fazer contrabando, para com muita honestidade se tornar em rei do carapau. Dona Felismina era tão rica como feia e certamente ficaria para tia se tivesse irmãos se não fossem tantas as dificuldades do doutor Neves. Foi a sua tábua de salvação no naufrágio da vida.&lt;br /&gt;Após o casamento e por vontade da sogra, senhora que tinha uma vontade férrea, mudou-se para Tavira, onde todos viviam, como Deus com os anjos, dos rendimentos, longe das más linguas de Venda Nova que clamavam ter sido um casamento por interesse. Só vinham passar férias ao palacete que ía com os anos diminuindo até ser uma casa vulgar com uma cor vermelha de muito mau gosto. Embora tivesse um tanque com peixinhos vermelhos que o doutor Neves tratava melhor do que aos doentes.&lt;br /&gt;Um verão o doutor Neves apareceu em Venda Nova com um carro novo onde estreara gloriosamente a sua carta de condutor e o Porfirio, motorista das camionetas de carreira, até lhe chamou colega, o que deu origem a um incidente que terminou em tribunal. A posição do Porfirio foi brilhantemente defendida pelo doutor Sargaço ao provar que o seu constituinte tinha agido de boa fé e muito angelicamente ao tratar o médico, pessoa muito respeitável, clinico muito distinto, sumidade, luminar e etc., por colega apenas se referia à circunstância de ambos serem motoristas. Que o Porfírio até descera no seu próprio conceito pois era um dos melhores motoristas, um profissional honesto, um honrado chefe de família e que estava profundamente arrependido de ter usado tal palavra.&lt;br /&gt;Toda a gente ficou encantada com a absolvição de Porfírio e à boca pequena ouviam-se frases como estas:&lt;br /&gt;- Então, Porfírio, como vai o teu colega?&lt;br /&gt;- A mim não me leva ele na camioneta !&lt;br /&gt;- A sorte dele foi ter casado. Ainda morria à fome antes dos seus doentes!&lt;br /&gt;Eu era criança e julgava que era maledicência. Quando cresci vi que era mesmo verdade.&lt;br /&gt;O doutor Campos era médico em Tavira mas vinha três vezes por semana a Venda Nova onde tinha muitos doentes. Fazia as visitas domiciliárias de trem, com uma manta a tapar-lhe os joelhos por causa do frio. Andava sempre a rir e dizia-se que era muito rico. Muito bondoso, até fazia descontos de dez por cento o que muita gente, reconhecida, agradecia, dando-lhe presentes por ocasião das festas.&lt;br /&gt;Quando eu estava doente era ele quem me tratava e, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;não me obrigando a tomar os medicamentos, tomava-os todos até os que eram amargos.&lt;br /&gt;Era muito bom médico, segundo diziam, e só morriam os que não escapavam.&lt;br /&gt;A farmácia Alegre ficava no centro de Venda Nova num edificio de um único piso e servia de habitação do doutor Isac Abrão Alegre que era proprietário e director técnico conforme estava numa tabuleta.&lt;br /&gt;Tinha um pátio ladrilhado que dava para a rua principal ladeado por um gradeamento pintado de verde e junto à janela que dava para a sala onde estava a farmácia havia uma palmeira a cuja sombra se sentava, numa preguiceira o doutor Abrão.&lt;br /&gt;Pessoa cheia de carne, como os porcos gordos de meu pai antes da matança, andava sempre suando muito no verão e tinha quase setenta anos. Estava casado, em segundas núpcias com Dona Felcidade Alegre, senhora dos seus trinta anos de idade, muito bonita, cheirosa e pintada.&lt;br /&gt;A porta de entrada para a habitação e para a farmácia era a mesma e tinha sempre uma rede de pesca para evitar que as moscas entrassem e saissem. Em Venda Nova havia moscas e pessoas suficientes - uma pessoa para várias moscas, e muitas moscas em cada pessoa - que olhassem para elas e para as outras coisas que ainda interessavam menos do que as moscas e que muito as preocupava. A tal ponto que abandonavam tudo o que estavam a fazer para presenciarem. Para comentarem depois. A farmácia estava sempre aberta até à meia noite para se poder aviar as receitas. A porta dava para um corredor que tinha vasos de flores dum lado e do outro e o corredor chegava até à porta da casa de jantar. Do lado direito ficava a porta para a farmácia e que comunicava com o laboratório por um arco no qual estava inscrita essa indicação. Era onde o doutor Abrão, de bata branca e com ares muito so1enes e atentos, misturava os pós e preparava os medicamentos que constavam nas receitas com umas letras tão mal feitas que só ele entendia por que tinha estudado muito para saber ler aquelas caligrafias de levar réguadas se fossem de meninos que andassem na escola.&lt;br /&gt;Do lado esquerdo era a salinha onde tinha um rádio Telefunken em cima duma mesinha de verga, ligado a uma bateria, com cadeiras também de vergas espalhadas pela sala, com almofadas coloridas em profusão.&lt;br /&gt;Quando havia dasafios internacionais de futebol as pessoas mais gradas da terra entravam para a sala, as mais ricas ou categorizadas ficavam sentadas, outras ficavam da pé e íam ocupando o corredor em estratificaçao social até à rua. Como o doutor Abrão era muito patriota abria a janela que dava para o pátio para que toda a gente pudesse ouvir o relato do desafio. Um Portugal-Espanha era motivo para demonstração insofismável de lusitanismo e embora se perdesse sempre e por diferença muito volumosa toda a gente saía dali com a impressão que fora para nós uma retumbante vitória moral pois o doutor Abrão, com a autoridade que lhe dava ter um rádio Telefunken, fazia uma alocução que deixava todos satisfeitos e vingados falando de Aljubarrota, da ala dos namorados, do Condestável que antes da peleja rezara a pedir a vitória. Falava, também, da Restauração, em 1640, e da expulsão justa dos invasores.&lt;br /&gt;Dona Felicidade Alegre era loura cor de seara e tinha o cabelo cortado à garçon, moda muito usada nessa época. Andava sempre muito pintada a toda a gente a censurava, pelas costas. Era uma senhora que pintava os lábios com um baton romã vermelho.&lt;br /&gt;Falavam de tudo, falavam da Dona Felicidade que era uma senhora e das muitas paixöes incendiárias dos homens por ela.&lt;br /&gt;O que é certo é que nunca em dias da minha vida vi incêndios ou bombeiros em prevenção.&lt;br /&gt;Tudo corria o mais normal possível para Venda Nova.&lt;br /&gt;As camionetas cumpriam as carreiras entre Faro e Vila Real dentro das horários debaixo da superior condução do Senhor Porfírio e do cobrador Chumbado Coelho.&lt;br /&gt;Um motorista tinha tanta importância como um doutor desclassificado e a chegada da camioneta a Venda Nova era um acto tão importante a revestia-se de tal solenidade que só seria igualada quando os americanos fossem à lua com os seus foguetões e todas as aparelhagens montadas em Houston, U.S.A..&lt;br /&gt;A importância da chegada da camioneta era um facto verificado e comprovado, diáriamente, com o mesmo interesse para as gentes da terra e só o progresso é que se encarregaria de destruir, lenta e calmamente, essa importância, com os seus dentes de conquistas devoradoras do futuro. A camioneta businava à entrada da povoação e as pessoas despertavam do seu letargo e vinham para a estrada olhando para os relógios, admirados da precisão com que se cumpriam os horários. Os barbeiros deixavam os fregueses sentados nas cadeiras, com sabão a secar-lhes na cara e vinham à porta, de navalha na mão a luzir brilhos, para se inteirarem das novidades. Que comentavam enquanto faziam barbas ou desfaziam cabeleiras aos clientes. O Balbúrdia, que arranjara a alcunha graças ao seu falar atabalhoado, ía mesma à camioneta para saber notícias doutras terras e era o cobrador, o Chumbado Coelho, que o informava com o maior número de pormenores o que se passara em Faro, Olhão, Tavira, etc..&lt;br /&gt;Porfírio abria, com a custumada solenidade, a porta da camioneta e saía para a estrada onda ficava a desentorpecer as pernas, de tal moda que ninguém, nem mesmo as crianças, eram capazes de imitar. Ficava ali, estendendo os braços para trás e para a frente, dobrando o corpo para os lados enquanto flectia as pernas e as atirava, ora para a frente ora para trás, como se estivesse a dar pontapés numa bola de futebol. Dando tempo a que as senhoras o vissem. Depois dirigia-se para a taberna do Simão Carolo onde bebia, regaladamente, um pirolito.&lt;br /&gt;O cobrador descarregava cestos e sacos do tejadilho atirando-os para o chão duro de alcatrão ou para as mãos dos passageiros que ainda agradeciam. Depois exigia que subissem os dois primeiros degraus para que lhe pusessem ao alcance das mãos as bagagens a carregar.&lt;br /&gt;- Dê lá um geitinho, amigo ! dizia ele.&lt;br /&gt;As pessoas esforçavam-se um pouco mais ainda e davam o jeitinho necessário, sem um agradecimento.&lt;br /&gt;Quando tudo estava despachado o Chumbado começava a campainhar puxando por uma correia, de cabedal, velha e suja, que estava pendurada no tecto da camioneta e, se o Porfírio não aparecia logo, businava três vezes, que era o código deles para se cumprir o horário. Então, o Porfírio, vinha com todos os vagares em direcção da camioneta, com os seus ares misteriosos de saber pôr tudo aquilo em movimento a levar as pessoas dum lado para o outro.&lt;br /&gt;- Está tudo ? - perguntava ao Chumbado.&lt;br /&gt;- Tudo.&lt;br /&gt;Businava uma vez mais. Depois a camioneta lá seguia o seu destino, cumprindo horários, com alguns retardatários ainda ocupando os seus lugares.&lt;br /&gt;- Vamos lá sentar- pedia o Chumbado Coelho.&lt;br /&gt;O Balbúrdia ía ensaboar de novo a cara do freguês quase adormecido na cadeira.&lt;br /&gt;As moscas dançavam os seus bailados monótonos, pachorrentos, tranquilos, sem se cansarem de seus ritmos.&lt;br /&gt;Venda Nova ficava outra vez a mesma. Sem camionetas. As mesmas pessoas. Como um rio parado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113458380156683255?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113458380156683255/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113458380156683255' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113458380156683255'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113458380156683255'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/12/conto-xiii.html' title='CONTO XIII'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113449639660770122</id><published>2005-12-14T17:51:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:58.833Z</updated><title type='text'>CONTO XII</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-2.3.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/image0-2.1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Nem eu, cem anos depois, saberia o que tinha sido o futuro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Apenas me tinha chegado o retrato para interrogar; e as datas por de trás para conferir; e pequenas notas alinhadas de registos indecifráveis dispersos pelo forro da moldura:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Mas ninguém sabia o que iria ser o futuro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Tudo se passaria como se as pessoas andassem de olhos vendados e só se apercebessem o que ele significava quando já tivesse passado.&lt;br /&gt;Isso não impedia que eu pensasse em coisas que não estavam adequadas à minha idade e fazia-o com todos os segredos, cautelosamente, para que ninguém desconfiasse de nada. Achava que tinha todo o direito da pensar como pensava embora não tivesse idade para isso.&lt;br /&gt;Pensava que teria sido bom viver com o meu avô, guiando os seus passos cansados, para que ele me ensinasse a ser neto e falasse, visse e ouvisse comigo. Mas também pensava que, para ele, devia ser mais interessante ter morrido com setenta anos, só para não ver mais, para não ouvir mais, para não pensar mais, para não estar mais interessado em tudo o que poderia ter feito e não fez. Para deixar que os outros fizessem melhor. E para saber, mesmo no seu silêncio de morto, que os outros nunca serão capazes de fazer melhor do que as gerações anteriores, embora digam que o estão fazendo.&lt;br /&gt;Pensava que o meu avô tivera razão em morrer, por que há razões para tudo e os avós terem de morrer é uma razão muito forte. Muito mais forte do que os jovens morrerem nas guerras, mesmo que pertençam aos vencedores.&lt;br /&gt;Eu gostava muito do meu avô. Que tinha morrido para si mas que vivia nas pessoas, em mim e nas coisas que me rodeavam. Gostava tanto dele que muitas vezes tinha vontade de lhe pedir que descesse do retrato para me beijar com aquelas barbas de santo, apóstolo ou profeta, não sabia bem. E depois tinha medo que ele ouvisse os meus pensamentos e viesse, embora fosse coisa impossível e de espantar descer do retrato para me beijar.&lt;br /&gt;Como seriam as barbas do meu avô se fossem vivas e não estivessem ali arrumadas no retrato, mas ondulando ao vento?&lt;br /&gt;Como seriam os ouvidos do meu avô para mim ?&lt;br /&gt;Se ele tivera ouvidos pacientes para toda a gente também os teria para o seu neto. Talvez ainda ouvidos mais complacentes dos que os das histórias das bondades que os outros contavam dele.&lt;br /&gt;E tinha dívidas. As dívidas praguejadas por meu pai.&lt;br /&gt;Eu não lhe dava razão, ou ao que ele dizia, por que falava dum morto e do seu próprio pai. Uma pessoa que não podia defender-se tinha, para mim, qualidades que não tivera, talvez, para mais ninguém. As coisas importantes existem para as crianças que acreditam nelas.&lt;br /&gt;Tinha reprovado no segundo ano, era mau aluno, mas era um problema meu. Por que os estudos só a mim poderiam fazer doutor e ser importante. Como meu pai dizia dos outros doutores.&lt;br /&gt;- É tudo deles !&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113449639660770122?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113449639660770122/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113449639660770122' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113449639660770122'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113449639660770122'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/12/conto-xii.html' title='CONTO XII'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113449886959186121</id><published>2005-12-13T18:33:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:58.904Z</updated><title type='text'>O Avô</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/640/IMG_0017.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/320/IMG_0017.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://picasa.google.com/" target="ext"&gt;&lt;img style="BORDER-RIGHT: 0px; PADDING-RIGHT: 0px; BORDER-TOP: 0px; PADDING-LEFT: 0px; BACKGROUND: 0% 50%; PADDING-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; PADDING-TOP: 0px; BORDER-BOTTOM: 0px; moz-background-clip: initial; moz-background-origin: initial; moz-background-inline-policy: initial" alt="Posted by Picasa" src="http://photos1.blogger.com/pbp.gif" align="middle" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113449886959186121?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113449886959186121/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113449886959186121' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113449886959186121'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113449886959186121'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/12/o-av.html' title='O Avô'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113398237785410319</id><published>2005-12-07T18:41:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:58.762Z</updated><title type='text'>CONTO XI</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-1.9.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/image0-1.6.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;A história repetia-se, geração após de geração, desde a invenção dos sonhos e dos canudos. Então, revejo o inesquecível Bolero de Ravel percorrendo o drama de &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0083260/"&gt;Les uns et autres &lt;/a&gt;de &lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.imdb.com/name/nm0500988/"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Claude Lelouch&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt; e a seguir registo o que me dizem :&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O meu pai queria para mim um canudo que era, afinal, o seu. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Os sonhos dele, em mim, para que eu os realizasse.&lt;br /&gt;Aos doze anos encaminhou-me para a estrada que leva aos destinos dos outros, para o que julgava ser melhor na transformação de uma criança em homem, mas a vida à minha frente seria muito diferente da dele habituado a manejar a vontade dos outros com o seu poderio económico.&lt;br /&gt;Aos catorze anos perdera o ano. Mas tinham passado dois anos importantes para mim, sem a necessidade de ter aproveitamento nos estudos. Tinha aprendido nesses dois anos o que não vem nos livros. Que vem nas pessoas e na vida. Tinha fugido durante esse tempo à vida amarga dos campos, àquela vida sem esperanças, àquela morte feita de mil misérias quotidianas, por uma escolha inconsciente. Sem saber se era mais feliz do que aquela gente que nunca se queixava, mas julgando sabê-lo porque era filho daquele senhor tão importante que não me obrigava a comer papas de milho e pão seco com azeitonas que caiam, podres, das oliveiras.&lt;br /&gt;Eu nascera diferente ao ser filho dum homem que toda a gente teme e respeita por que está nas suas mãos de ferro e agressão o pão que comem. Do homem que vai de uma quinta para outra montado orgulhosamente na sua bicicleta que tem farolim de carbureto para não perder velocidade. Ou para que o progresso do dínamo não o obrigue a usar mais força para se deslocar.&lt;br /&gt;Toda aquela gente arrastada de servidões antigas tinha ficado satisfeita quando eu nasci como se pudesse ser para eles uma esperança de futuro melhor. Mas iria ser mais um elo que tornaria maiores as prisões, se não houvesse um outro futuro independente das pessoas, para fazer dos seus filhos seres idênticos a viverem uma continuidade de servidão nos mesmos moldes.&lt;br /&gt;O futuro estava esperando por todos, com os dentes afiados do tempo, e durante quarenta anos seriam desfeitas muitas concepções sem lágrimas desnecessárias de ninguém.&lt;br /&gt;Sem o saberem, eles tinham ficado satisfeitos com o meu nascimento pois que eu era o futuro que esperavam ou uma esperança de regresso a um passado que fora mais humano e mais compreensivo com as classes mais desprotegidas.&lt;br /&gt;Um desses trabalhadores, quando eu tinha um ano de idade e de gatas procurava descobrir o mundo dos outros, evitou que eu tivesse caído dentro dum poço com dezasseis metros de profundidade, onde certamente me teria afogado. Agora, que tenho catorze anos e a consciência de muita coisa que não sei bem, acho que teria sido preferível que me tivesse ignorado e me deixasse afogar. Não teria perdido o segundo ano do liceu. Nem teria futuro. Nem passado. Tudo teria ficado no fundo desse poço e para mim não teria havido lágrimas dos outros. Nem as minhas que nunca serviram para tornar as coisas diferentes. Que apenas ficaram com lágrimas desnecessárias, esquecidas até por quem as chorou.&lt;br /&gt;Aos catorze anos, embora não fosse ainda ninguém para os outros porque era uma criança inocente já era um pouco de alguém para mim naquilo que pensava. Os meus olhos estavam abertos para o mundo e os meus ouvidos traziam-me palavras que me obrigavam a pensar. Sentia-me injusto comigo e com os outros ao mesmo tempo que descobria o meu mundo e o mundo dos outros.&lt;br /&gt;Quando os trabalhadores comiam pão e azeitonas falavam do meu avô, o pai de meu pai, e contavam histórias bonitas de comidas quentes. Contavam bondades antigas como se fosse possível vê-las repetidas com humanidades recentes.&lt;br /&gt;E contavam mundos possíveis num mundo de coisas e de pessoas impossíveis.&lt;br /&gt;As pessoas não sabiam ainda que a melhor maneira de ser humano só podia ser conseguida com novas formas de justiça social. Apenas os sábios, os filósofos, os poetas e sonhadores e as crianças estavam pensando nisso e davam o seu sangue em troca das suas ideias. As pessoas estavam esperando, inutilmente, um regresso ao passado para a constituição dum futuro melhor e cultivavam as flores da tradição.&lt;br /&gt;O meu pai lamentava-se que meu avô deixara dívidas e que nunca tinha dinheiro, por culpa do pai. E eu também nunca tinha dinheiro porque o meu pai não mo dava.&lt;br /&gt;O meu avô tinha morrido antes do meu nascimento e deve ter tido muita pena de não me ter conhecido. Nem eu, nem ninguém, lhe poderia já dizer as queixas do meu pai. Eu também não lhe podia dizer que ele, afinal, fora justo pois que vivera como fora capaz. Não aparecia para negar as palavras do filho ou as bondades de que os trabalhadores falavam. Continuava só a ser a esperança daquela gente sem esperança que voltava os olhos para mim na vã tentativa de verem repetido um passado no futuro que eu representava. Mas o passado já tinha voltado as costas a toda a gente.&lt;br /&gt;Eu vivia inconsciente em mim. Era uma criança que não aprendia as lições dos livros e sem poder ser medido por essa leitura. Estaria destinado, para mim, que nunca seria um senhor importante, por ter um canudo dos sonhos de meu pai, mas a época seria também a da desvalorização dos diplomas pois os próprios diplomados se encarregariam de os manchar ou de os tornar inúteis e sem importância. Hoje toda a gente sabe isso, mas quando eu tinha catorze anos ainda ninguém o sabia. Quando o souberam já era tarde de mais para se apagarem os actos construidos no dia a dia de quarenta anos.&lt;br /&gt;Meu avô continuava morto. Irremediávelmente esquecido de si, da sua época, dos seu erros. De todos. Esquecido de mim. Lembrado em mim pelas palavras dos que o tinham conhecido, dos que o tinham desejado como vivo para ressuscitar uma época apagada pela geração de meu pai.&lt;br /&gt;Lembrado em mim pela fotografia da sala. Onde ele estava sempre quando eu queria encontrá-lo. O meu avô, humano dos outros, contido pela moldura do retrato.&lt;br /&gt;O meu avô de barbas grandes no retrato pendurado na parede da sala olhava para tudo e via tudo com os seus olhos de retrato, sem uma palavra ou uma censura para o seu filho sem um aplauso para a minha ternura.&lt;br /&gt;Às vezes dava-me vontade de lhe pedir que descesse do retrato e viesse ver os trabalhadores comerem pão com azeitonas. Que viesse para escutar com os seus ouvidos as histórias bonitas que eles contavam. Mas não pedia nada porque seria uma doidice pedir a um retrato um coisa dessas.&lt;br /&gt;Pedia só, o melhor que podia pedir como criança, por dentro de mim, no silêncio das minhas palavras e do seu ouvir. Pedia e tornava a pedir até ver nos olhos do meu avô um olhar de compreensão. Porque ele compreendia tudo o que eu pensava e via tudo o que eu não dizia. Porque ele tinha vivido também, sabia bem desse ofício de viver e morrer, teria chorado por si e pelos outros sem que ninguém lhe pedisse. Sem saber sequer que eu seria um dia mais tarde o seu primeiro neto e que me iria acompanhar, em cada momento da minha vida, morto em si, mas vivo em mim. Ele sabia isso porque não tinha outro futuro senão o que levara consigo quando morreu. Ele não sabia, mas eu sabia-o. E contava-lho sempre que podia porque estava sempre à minha espera no retrato da parede.&lt;br /&gt;Minha mãe entrava, às vezes, na sala e encontrava-me muito compenetrado em frente do retrato nos diálogos do nosso silêncio. E dizia-me sempre, mesmo que nada lhe perguntasse :&lt;br /&gt;- Aquele senhor das barbas é o teu avô.&lt;br /&gt;- Já sabia, mamã.&lt;br /&gt;- Morreu há muitos anos.&lt;br /&gt;- Era boa pessoa ? - perguntava eu só para ouvir o que a minha mãe iria falar elogiosamnente.&lt;br /&gt;- Dizem que sim... Que eu não conheci bem...Tinha umas barbas muito grandes.&lt;br /&gt;Essa era a evidência do retrato.&lt;br /&gt;- Morreu novo ?&lt;br /&gt;- Tinha setenta anos.&lt;br /&gt;- Já era velho.&lt;br /&gt;- Sim - respondia minha mãe.&lt;br /&gt;- Gostava de o ter conhecido.&lt;br /&gt;- Morreu antes de tu nasceres.&lt;br /&gt;Minha mãe explicava o que sabia sobre o meu avô mas não me dizia o que eu já sabia...&lt;br /&gt;- Vai brincar para a rua - rematava ela.&lt;br /&gt;Eu dava um último olhar ao retrato sem dizer nada, fixando os meus olhos nos do meu avô. Era a nossa despedida. Eu era uma criança e ninguém liga importância aos disparates ou as crenças das crianças salvo quando têm interesse nisso.&lt;br /&gt;Sabia que meu avô morrera três anos antes do meu nascimento, que eu tinha o nome dele e ainda mais um nome de família de minha mãe e sabia muito mais coisas que me contavam os estranhos, mas não dizia nada a ninguém. Nem a minha mãe. De resto eu era uma criança e quando se é criança há muita coisa que não se deve saber para que as pessoas mais velhas digam que nós somos inocentes. E que não sabemos o que dizemos ou fazemos. As crianças têm de aprender a ser crianças ainda qua não haja nada que as ensine.&lt;br /&gt;Nessa época ainda não havia jardins escolas que nos ensinassem, devidamente, a brincar e as nossas brincadeiras eram brincadeiras de crianças que não sabiam outra coisa do que brincar sem a ajuda dos conhecimentos dos adultos. Éramos, no fundo, crianças felizes. Não tinhamos complexos por que não tinham sido ainda levados para os meninos que viviam afastados da civilização. Éramos mais irresponsáveis e toda a gente contava com isso. Mas já tinhamos a certeza de que quando fossemos homens iriamos ser como os outros homens e teriamos filhos e tudo para os deixar brincar.&lt;br /&gt;Depois, muitas dessas coisas iriam ser diferentes. O meu pai seria uma pessoa como as outras e depois ainda seria menos porque o mundo do futuro viria destruír o seu.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113398237785410319?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113398237785410319/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113398237785410319' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113398237785410319'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113398237785410319'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/12/conto-xi.html' title='CONTO XI'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113354818063531233</id><published>2005-12-02T18:28:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:58.689Z</updated><title type='text'>CONTO X</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-1.7.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/image0-1.5.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O tempo da Nora ainda não tinha chegado. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Venâncio Figueira continuava estendido no melhor fato com o seu caixão. Ninguém queria deixá-lo só! Não fosse acontecer o mesmo que ao velho Lester,do romance de Caldwell a Estrada do Tabaco,  em que os ratos devoraram quase todo o lado esquerdo do rosto e parte do pescoço. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Quando o médico chegou já tinha morrido !&lt;br /&gt;Quantas vezes já morrera meu pai na boca de minha mãe ?&lt;br /&gt;Quantas vezes já eu ouvira as palavras da morte dele nas bocas dos outros ?&lt;br /&gt;- Se estivesse em Lisboa talvez se salvasse - disse um cavalheiro com palavras cheias de fumo da civilização e dos recursos extremos. Lisboa é a cidade onde não se morre ?&lt;br /&gt;Ou morre-se a viver ?&lt;br /&gt;- É uma cidade onde nada falta - acrescentou.&lt;br /&gt;Como deve ser grande a dor numa cidade assim !&lt;br /&gt;Em todo o mundo se morre. Mortes ignoradas e necessárias.&lt;br /&gt;Meu pai morrera a sua morte necessária, irremediável, da mesma maneira como vivera.&lt;br /&gt;Lutando arduamente, rijamente, pelas coisas onde cravara as raízes das suas ideias. E dos seus sonhos, talvez !&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113354818063531233?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113354818063531233/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113354818063531233' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113354818063531233'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113354818063531233'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/12/conto-x.html' title='CONTO X'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113338993152593042</id><published>2005-11-30T22:08:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:58.624Z</updated><title type='text'>Nora</title><content type='html'>&lt;p align="center"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/IMG_0014.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/IMG_0014.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/IMG_0014.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/IMG_0019.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/IMG_0015.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-1.6.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;A Nora era um pequeno lugar junto à estrada que vinha e ía a Tavira e a Vila Real de Santo António. Junto à paragem das camionetas da carreira, a mercearia cheirava ao Café Guadiana da torrefação e moagem de café Palermo &amp;amp; Osório, Lda com o nº de telefone 12 de Mértola. A alguns cantos do balcão o cheiro alternava entre canela, açucar mascavado, alfarroba, cebolas, bacalhau.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Pela frincha das portadas podiamos observar quem apeva das carreiras e seguia seu destino para a Fábrica, onde o Estica já pescava naquela chata que um dia iria ficar atolada, na maré baixa da ria, bem do outro lado, frente a Cacela, e afastada das marés Santa Rita. Quase todos eram compadres, comadres ou parentes. Quando se entrava na mercearia dizia-se sempre:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;-Oh! comadre...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;-Diga lá compadre...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;-O parente não está ?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;-Saiu com a comadre e aventaram o norte.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Aqui, era a Nora o sítio onde se discutia se o miúdo devia ou não ser batizado e que o padre sempre pressionava. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;-A ser batizado terá de ser em Fátima. Sentenciava o pai, fazendo correr lágrimas de fé nos presentes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113338993152593042?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113338993152593042/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113338993152593042' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113338993152593042'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113338993152593042'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/11/nora.html' title='Nora'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113321979495962756</id><published>2005-11-28T23:12:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:58.557Z</updated><title type='text'>CONTO IX</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-10.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/320/image0-10.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Em 1930 morria-se, impiedosamente, de tuberculose pulmonar.&lt;br /&gt;- O pai também morreu tuberculoso - diziam.&lt;br /&gt;- Andou toda a noite a dançar e depois foi para a rua com a camisa suada ! Foi da frieza.&lt;br /&gt;- Coitada, levava os dias agarrada a máquina de costura.&lt;br /&gt;- Eram muitos filhos e a comida pouca !&lt;br /&gt;Famílias inteiras foram dizimadas. A guerra é que traria a cura com as penicilinas. As pessoas ficaram, então, satisfeitas por que a guerra acendera esperanças mortas e toda a gente dizia que os filhos não teriam morrido, mesmo que fossem tuberculosos, se a guerra tivesse sido antes. Saber-se que há cura para males de que antes se morria já é uma satisfação grande para os que não morreram atingidos por esses males. Mas haverá sempre novos males a afligir a sociedade, em qualquer tempo, ainda que as pessoas tenham encontrado todas as soluções.&lt;br /&gt;As soluções serão sempre tardias e as pessoas serão outras.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113321979495962756?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113321979495962756/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113321979495962756' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113321979495962756'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113321979495962756'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/11/conto-ix.html' title='CONTO IX'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113287035161241790</id><published>2005-11-24T22:03:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:58.382Z</updated><title type='text'>CONTO VIII</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-9.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/image0-9.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-2.2.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Quando o médico chegou já tinha morrido, explicava minha mãe o desenlace final.&lt;br /&gt;-Era a morte... Era a morte ... - confirmou a Lúcia Zarolha com o pesar estampado na sua cara de sapato velho, sem lustro. E todas as pessoas meneavam a cabeça em gestos, de muito entendimento por uma morte tão morte e tão evidente.&lt;br /&gt;Tão evidente que o morto estava ali, impassível, para o afirmar com a sua presença.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113287035161241790?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113287035161241790/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113287035161241790' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113287035161241790'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113287035161241790'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/11/conto-viii.html' title='CONTO VIII'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113226581549175329</id><published>2005-11-17T21:54:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:58.302Z</updated><title type='text'>CONTO VII</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-7.0.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/image0-7.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-7.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Numa pausa olhei a vidraça que me dava o enquadramento de um trecho de horta arqueológica. Um papel amarrotado deslizava, movido pela brisa da tarde, no parapeito da janela, pelo lado de fora, assemelhando-se a insecto encantado pela luz. Abri e li :&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Tinha ido para o Liceu, aos doze anos, porque meu pai, para quem eu olhava com muito respeito, ou com muito medo de olhar, tanto que quando estava sentado à mesa fazia o meu olhar passar por baixo dela antes de o dirigir a ele, me disse, certo dia, depois de completar o exame de instrução primária: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Ouve lá. Tu queres ir estudar, ou queres ir trabalhar no campo? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- E o que é estudar? - Perguntei com os ares mais inocentes deste mundo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Estudar é seres uma pessoa esperta e importante. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Era o que eu mais queria ser! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Meu pai continuou : &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- É não fazer nada. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Era também o que eu mais gostava, para ter muito tempo para brincar. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- É a vida fácil - disse meu pai com seus ares de pessoa que sabe tudo, que podia garantir com autoridade tudo o que dizia com o seu soberano afirmar " quero, posso e mando “. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Para mim não havia ninguém nessa altura da minha inocência que soubesse mais do que o meu pai, ou que tivesse mais autoridade do que ele pois castigava as crianças e toda a gente estava de acordo. Se ele quisesse até podia matar-nos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Nós não sabíamos o que era morrer mas todos achávamos que estava bem, que podia matar-nos para fazer justiça. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- O senhor doutor Campos e o Senhor doutor Abraão também estudaram por isso são agora pessoas muito importantes. Têm um canudo. E é muito importante ter um canudo - assegurou meu pai.- Quem não o tem não tem nada. Quem não é formado é uma trampa! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Para mim era-me grato ser uma pessoa importante com canudo das considerações para não ser uma trampa e andar a não fazer nada, como meu pai dizia. E ele sabia bem o que dizer pois quando dava ordem aos trabalhadores ninguém o contrariava, mesmo quando se tratava de homens muito mais velhos do que ele, capazes de serem seus pais. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Com doze anos eu gostava de tudo o que era bom embora ainda não soubesse bem estabelecer as diferenças. Por isso meu pai explicou e continuou a explicar muitas coisas que eu não compreendi mas não disse nada porque ele não admitia que as pessoas não compreendessem logo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Eu quis ir estudar porque era, segundo a concepção geral, não fazer nada e optei por essa solução que não me agradava muito, pois que tinha de ir para Faro, mas que era o que dava menos trabalho. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Sabia muito bem o que era trabalhar no campo por que desde pequeno me habituara a ver os homens e as mulheres agarrados a uma enxada, ao arado, ou à foice, como escravos que só tinham nascido para essa servidão. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Nasce uma pessoa para trabalhar - dizia um com cansaços velhos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Para andar uma vida arrastada - diziam todos os que eu conhecia. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Pessoas vestidas de panos velhos, gastando a carne, sem tempo para pensarem em injustiças ou esperanças. Homens que só tinham cara para que o suor lhes escorresse nela. Com olhos a brilharem claridades fenecidas coladas nessas caras de esforços e de martírios. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Trabalhar era suor e desânimos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;As mãos a varrerem com gestos parados o que escorria pelos sulcos abertos no pó, na dor, no tempo suspenso naquelas caras sem esperanças e sem lugar para sonhos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Sabia o que era trabalhar. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Via aquela gente que não sabia rir nem chorar. Que talvez já nem soubesse o que era sofrer, o que era o drama de viver assim porque para eles, a vida e a morte eram irmãs gémeas. Que não tinha outra explicação que serem injustas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Eu não queria trabalhar no campo como aquela gente que, afinal não era ninguém. Que só tinham nascido para o que contassem com eles para um trabalho sem principio nem fim. Que só tinham nascido para sonharem pesadelos inconscientes. Com destinos iguais de pais para filhos, por toda a eternidade. Uma eternidade de nunca acabar. Aquela gente era uma manada. Um rebanho de tantos homens e tantas mulheres contados como cabeças de gado a andarem de um lado para o outro da sua e&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;ternidade. Uma eternidade que nunca devia ter começado porque era só de sofrimento. A eternidade devia ser justa. Devia ser um pouco melhor para aquela gente. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Eu era criança e gostava dos trabalhadores como se fossem meus filhos. Não podia fazer nada por eles ainda que me juntasse às suas dores porque a minha voz seria uma voz calada como as deles.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Sim, eles eram o coro das vozes caladas de todos os séculos que ainda não tinham morrido. Eles transportavam a dor através de todos os tempos e nunca lhes faltou as forças. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Mas não queria ser como aquela gente que já não sabia gritar, que andava todo o dia vergada para o chão mordendo-o com a enxada, com as vozes dos desânimos partidas pela cintura porque eu não me sentia com forças para calar o meu grito. Se o abafasse dentro de mim, explodiria e seria a trampa das comparações de meu pai. Antes queria ir estudar para não fazer nada e ter um futuro igual aos senhores de canudo que eram importantes porque eu ainda não os conhecia bem. Mais tarde iria saber que muitos deles eram muito menos do que os trabalhadores de meu pai. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Tinha só doze anos e os olhos e os ouvidos de aprender lições que as pessoas mais velhas estão sempre ensinando porque não foram capazes de aprender as suas, suficientemente. Não queria ser como aquela gente que trabalhava para comer papas de milho ao almoço e ao jantar. Papas de milho sempre. Sem um protesto grande. Sem um lamento pequeno. Sem um grito que suspendesse a vida por instantes para que ela fosse diferente nesse grito. Sem revoltas desnecessárias para não gastarem gritos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Para pouparem forças que talvez já não possuíssem. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113226581549175329?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113226581549175329/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113226581549175329' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113226581549175329'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113226581549175329'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/11/conto-vii.html' title='CONTO VII'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113209418843644035</id><published>2005-11-15T22:26:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:58.221Z</updated><title type='text'>50 avos</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/NOTA.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/320/NOTA.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/NOTA1.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/320/NOTA1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Exemplar da nota que o Paneiro tinha no bolso do seu fato branco de marinheiro, quando do regresso a Venda Nova. Comprovativo que utilizava para as histórias  sobre a China.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113209418843644035?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113209418843644035/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113209418843644035' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113209418843644035'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113209418843644035'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/11/50-avos.html' title='50 avos'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113198729930994722</id><published>2005-11-14T18:51:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:58.127Z</updated><title type='text'>CONTO VI</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-8.jpg"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/image0-8.jpg" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O pai do marquês saíu do Faustino no seu fiat uno branco, consequência do prémio conseguido nos bilhetinhos do Sr. Zé e lembrou a açorda de marisco que tinha em tempos comido na Ericeira, ainda Flore era sua amante. Por isso e também a pretexto de abençoar o fiat viajaram para Fátima , o pai do marquês e Flore agora já como sua esposa. Passaram pela Ericeira e mandaram vir a açorda de há trinta anos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;No casal, o cheiro a alfarroba já não percorria a casa, que agora era de espíritos e energias ocultas por um biombo coçado. Às vezes o cheiro da cânfora sobrepunhasse ao da madeira queimada na pequena lareira e um ou outro papel meio queimado esvoaçava pela única divisão da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À minha chegada levantou os olhos por cima dos óculos de ver ao perto e leu-me o que acabara de escrever: &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;A medida do Ruana era uma concha grande que tinha apanhado também na praia. E com os magros cobres que ia obtendo podia comer uma sopa numa taberna qualquer e beber uns copos que o aqueciam por dentro e por fora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Tinha o seu destino ligado talvez para sempre à taberna, a apanhar hoje conquilhas e viver amanhã de recados, mas ninguém lhe chamava gandulo, como o meu pai se fartava de dizer-me uma e outra vez, sempre que lhe apetecia. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Mas eu tinha, então, a juventude a desabrochar dentro de mim e a sua força cega a levar-me a fazer muitas asneiras, ainda que tivesse de ouvir todos os dias as palavras agressivas e duras de meu pai. E haveria de ser sempre eu, mesmo que me ameaçassem com o destino dos outros. Mesmo que me dissessem que viria a ser, um dia mais tarde, do meu futuro desconhecido, igual ao Paneiro, Arturinho, Ruana, Zé Melão ou Ratinho. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O Ratinho era baixo, forte e com tronco excessivamente desenvolvido.Os cabelos eram escorridos como de um rato saído de caneiro. Tinha uma pêra que terminava em bico e uns bigodes insolentes virados para cima e de pontas afiadas, como hastes de touros. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Era natural de Venda Nova mas abandonara a casa paterna e fora para Espanha onde esteve durante vinte anos. Só regressou após a morte dos pais e, até à sua vinda,ninguém sabia nada da sua vida. Muitos julgavam que ele tivesse morrido, algures em Espanha, sem regresso para ninguém. Foi, portanto, uma surpresa grande quando apareceu com o seu ar muito espanholado, falando um português mesclado com arrebiques salerados e uns olés mais ciganos e castiços que ditos por qualquer espanhol. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Dava saltos mortais que espantavam as crianças, encantadas de tanta coisa bonita, e trepava pelas paredes como se fosse gato fugindo de cão danado. Na parte mais alta dava uma volta ao corpo e descia assim. Mas só fazia essa habilidade em circunstâncias muito especiais. Era quando as pessoas acreditavam que ele tinha sido toureiro em Espanha. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;A mim fazia-me muita confusão que fosse preciso amarinhar pelas paredes para se ter sido toureiro em Espanha , e achava muito interessante o que ele fazia e até já experimentara fazer o mesmo sem o conseguir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Gabava-se que fora um perigoso conquistador de espanholas e assim ia gastando, alegremente, o que lhe coubera da herança com grande desgosto de seus irmãos e sobrinhos que viam delapidado o património que um dia lhes pertenceria de direito pois o Ratinho era solteiro e sem filhos conhecidos. Diziam que era melhor para a família que ele morresse do que andar a fazer aquelas figuras tristes que só serviam para colocar mal o nome respeitado dos Sousas e deixaram de lhe falar. Isso para o Ratinho ainda serviu para ficar mais tranquilo acerca dos familiares que não lhe davam nada, nem nunca lhe dariam, conforme o futuro iria demonstrar com a sua lógica indesmentível. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O certo é que o Ratinho continuava , imperturbável, com o seu destino de nenhum futuro, dançando como um cigano sem acampamento ao matraquear de umas castanholas coloridas e ruidosas que marcavam o compasso dos fandanguilhos e dos seu olés gritados com todo o salero de alma cigana e errante. Quando não dançava e cantava ia pela rua fora, de taberna para taberna, com o seu andar bamboleante de bailarino cansado e, de vez em quando, dizia " Olé ! " com a gana de cantador e a alma vagabunda na voz. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Sucedeu, então, o imprevisto. Descobriu-se em Venda Nova, por um singular acaso, que o Ratinho só gritava os seus olés quando lhe passava ao pé algum corneado, o que causou, como se deve calcular, um pânico tremendo entre os homens casados da vila. Tal foi o problema que, daí em diante, os homens começaram a andar aos pares. Assim, cada um deles ficaria sempre com dúvidas e pensaria, para seu íntimo sossego, que o olé se referia ao outro. O Ratinho, porém, apelando para a sua imaginação, resolveu o assunto à sua maneira, perante o pasmo e indignação dos lesados chifrentos pelos olés displicentes, e se eram ambos cornudos diziam duas vezes olé para que não houvesse dúvidas. Esclareceu o que no campo das virtuosas senhoras se passava em Venda Nova. O que foi muito grave e teve foros de meia tragédia. Os visados representavam uma percentagem que ía além da maioria o que já garantia, muito democraticamente, a tomada de uma posição sem oposição. A sociedade de Venda Nova foi abalada pelos olés do Ratinho e como o homem social tem sempre grandes meios para se defender da minoria perturbadora da boa harmonia estabelecida logo se procurou a solução conveniente e o inevitável aconteceu. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O Ratinho era maluco e não sabia o que dizia. Que ninguém devia ligar importância a um doido que derretera o que era dos pais e andava ao Deus dará sem a noção das responsabilidades com as suas acrobacias de circo e os seu olés de ofender pessoas decentes e respeitáveis que não tinham nada que se lhes apontasse. Que ninguém apontava a não ser o Ratinho. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Este, sem dizer nada, sem mostrar medo da sociedade que o alcunhava de maluco para se permitir continuar com os mesmos defeitos, torcia e retorcia os afiados bigodes e a cofiar a pêra com o desplante de toureiro que acabou as sortes e ficou com o touro vencido a seus pés, agonizante, com babas riscadas de sangue. As guias afiadas do bigode lembravam hastes finas de touro saídas da sua cara de escárnios para agredirem sem palavras a decência das pessoas que não eram malucas e o espaço à sua volta como tábuas de uma arena onde as lides as cansavam até as matarem. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Meu pai profetizava-me um futuro sem futuro e eu iria demonstrar que ele estava redondamente enganado. Que estava errado comigo e com os outros. Que era injusto e só via as coisas sob o prisma do seu interesse e dos seus egoísmos capazes de devorarem as vontades e as esperanças das pessoas. E de uma criança que via o mundo com os seus olhos de verde onde as flores ainda não tinham nascido. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Nem queria pensar no meu futuro. Uma criança não deve pensar nessas coisas complicadas e o facto de meu pai me obrigar a pensar no passado já me aborrecia bastante. Mais do que toda a gente poderia imaginar. Por minha vontade nunca teria tido essa coisa do passado, nunca o teria sequer desejado, nunca me teria preso, voluntariamente, a uma coisa tão pesada e de tanta responsabilidade. Era tão livre como um pássaro voando, embora me cortassem todas as asas da imaginação e procurassem que eu fizesse o que não podia. Não tinha forças para ser mais do que uma criança, a criança que era e manteria viva dentro de mim pela vida fora. Se pudesse.&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113198729930994722?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113198729930994722/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113198729930994722' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113198729930994722'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113198729930994722'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/11/conto-vi.html' title='CONTO VI'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113192070486555465</id><published>2005-11-13T22:17:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:58.024Z</updated><title type='text'>Fonte Santa</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/IMG_2273.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/IMG_2273.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;A Fonte Santa era um outro limite para as nossas brincadeiras. A ribeira em Julho ainda levava água e as mulheres aproveitavam para corar roupa. As barrelas mancham por momentos o pequeno fio de água que corre entre duas pedras. Mergulhamos na água até que uma cobra de água divide a água assustando-nos. Pegamos nas nossas Flaubers, apontando à sombra da cobra zig-zageando na água e nos arbustos assustada. As bicicletas aguardando que o vento norte anuncie o fim da brincadeira e na casa, o candeeiro a petróleo ilumine o sonho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113192070486555465?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113192070486555465/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113192070486555465' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113192070486555465'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113192070486555465'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/11/fonte-santa.html' title='Fonte Santa'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113138990626800233</id><published>2005-11-07T18:58:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:57.942Z</updated><title type='text'>CONTO V</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-6.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/image0-6.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-5.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Ainda no Faustino entre dois cafés o pai do marquês  mentalmente:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Que diferença entre a vida daquele tempo e a de agora ! - pensei. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Sentidos pêsames. Sinto muito. - disse uma dessas antiguidades que não reconheci.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- O menino já não me conhece ? - A sua cara não me é estranha.. . . &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Sou o Arvela. Trabalhei lá em casa de seu pai, que Deus tenha a alma em descanso. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Trabalhava na horta - explicou minha mãe. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Já sei quem é - disse eu sem me recordar de nada. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Quem havia de dizer que o menino ainda havia de ter um futuro tão bonito. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Se o Arvela soubesse o que era a minha vida e o que valia para mim teria ficado calado para não ofender as minhas intimidades. Mas via-me de gravata, com o fato preto do luto por meu pai, e julgava que eu tinha vindo do mundo onde tudo é abundantemente realizado. Não sabia de que mundo eu viera para estar ali, quase impessoal. Não lhe disse que o fato preto servira para o meu casamento e que estivera no guarda-fato sob a vigilância da naftalina aguardando a morte dos outros e a minha. Para que houvesse a decência dos outros no destino das tragédias vestidas de preto. Não disse nada. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Minha mãe continuava a chorar a mesma desgraça, com as mesmas palavras, os mesmos suspiros e quase as mesmas lágrimas que lhe desciam dos olhos para irem escorregando pelas faces até as beber. -&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Tudo mudou - pensei &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113138990626800233?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113138990626800233/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113138990626800233' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113138990626800233'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113138990626800233'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/11/conto-v.html' title='CONTO V'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113130621851732009</id><published>2005-11-06T19:41:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:57.864Z</updated><title type='text'>Vila Nova de Cacela</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O marquês encontrou-se no dia 6 de Novembro de 1805, com o barão de Cacela, António Pedro de Brito Vila-Lobos, tenente-general do Exército, comendador da Ordem da Torre-e-Espada e cavaleiro da Ordem de Cristo, com o Marquês de Loulé, Agostinho José de Mendonça, por esse tempo grão mestre da Maçonaria, para comentar o Tratado de Fontainebleau em que o Alentejo e o Algarve ficava apanágio do espanhol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por essa altura nascia o avô de Venâncio Figueira. Na história dos Figueira as mulheres não contam e tal com Venâncio todos eram filhos de mãe desconhecida, como se Deus ainda continuasse a criar Adão e lhes desse o apelido Figueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por essa altura já Cacela se destinguia de Vila Nova de Cacela, aldeia que cresceu junto à estrada e linha do caminho-de-ferro, passando-se a chamar –Velha. Também a Nova se chamaria mais tarde de Venda Nova para destinguir o aparecimento das actividades económicas modernas. Entre elas, os Figueiras, possuiam duas tabernas, uma no Buraco e outra na Venda Nova, esta de um lado taberna do outro mercearia e retrosaria. A ligação entre elas era feita através de uma porta louca vai-e-vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor António, empregado dos Figueira, vinha todos os dias da Conceição para a Venda Nova na carreira da Moncarapachense e regressava no fim do dia na Pilar. Baixinho, cabelo abrilhantado, rindo muito, haveria de repartir com os clientes, da opção taberna, as grandes bebedeiras de fim de dia, regressando aos tombos, com a ajuda do revisor, ao seu habitual lugar no veículo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113130621851732009?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113130621851732009/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113130621851732009' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113130621851732009'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113130621851732009'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/11/vila-nova-de-cacela.html' title='Vila Nova de Cacela'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113104036616087812</id><published>2005-11-03T17:47:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:57.778Z</updated><title type='text'>CONTO IV</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-2.0.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/320/image0-2.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;No café do Faustino o pai do marquês agarrou de novo o passado:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Era um futuro desses que meu pai me profetizara só porque perdera o segundo ano do liceu.&lt;br /&gt;E eu que queria tanto ser herói de tudo e só não sabia como.&lt;br /&gt;Dentro dos meus pensamentos, tantos pensamentos, enquanto os trabalhadores cavavam com uma vontade que talvez não tivessem para mostrarem ao meu pai que eram diligentes e mereciam o que ganhavam. Não tiveram sequer uma palavra para o contrariar nas suas profecias a meu respeito.&lt;br /&gt;Poderiam dizer-lhe :&lt;br /&gt;- O senhor Venâncio é um agressor das vontades alheias!&lt;br /&gt;Ou gritarem-lhe :&lt;br /&gt;- As crianças têm de ser respeitadas!&lt;br /&gt;Mas não. Continuavam com os olhos na vergonha que eu tive das suas covardias.&lt;br /&gt;É bem feito que ele os trate desumanamente! pensei, indignado por me encontrar sozinho a lutar contra o tirano que nos escravizava a todos.&lt;br /&gt;Depois arrependi-me de pensar assim. Eles estavam a ser leais comigo e mentiam ao meu pai com a sua aparente vontade de trabalhar. Afinal lutavam da única maneira que podiam. Agrediam, também, com o seu sorriso. Estavam calados para não lhe dar razão. Estavam calados para não lhe dizer que estava a ter a paga do que fazia aos outros.&lt;br /&gt;- Anda uma pessoa a trabalhar para um gandulo destes! - disse o meu pai com raivas de paternidades legais na voz. - Mas eu trato-te da saúde !&lt;br /&gt;Depois calou-se como se estivesse a inventariar os pensamentos.&lt;br /&gt;- Nós, depois, falamos. Não as deitas em cesto roto, não! - com vinganças pensadas maduramente.&lt;br /&gt;Eu não gostava mesmo nada que ele me chamasse gandulo, embora não soubesse o que queria dizer tal palavra. Sabia que não era nada de bom e honroso para mim e intimamente pensava que gandulo e outras coisas piores era ele. Nem ia ver ao dicionário o que a palavra queria dizer para não me sentir ainda mais ofendido.&lt;br /&gt;Bailavam-me dentro dos ouvidos as profecias de desgraças iguais às dos desgraçados de Venda Nova e, de para mim, pensava que meu pai nunca me veria andar assim, nem que eu tivesse de esperar que ele morresse primeiro para, depois, senhor do meu destino, ser como eles. O que eu, para mim, achava não ser muito fácil pois eles eram inconfundíveis e únicos. E eu, era eu.&lt;br /&gt;O Ruana andara na escola até aos dezasseis anos e nunca aprendera a ler. Nem lhe fazia falta saber. O pai marítimo, enquanto vivo, obrigava-o a ir para o mar em busca de uma profissão para os outros e de uma aventura para mim. Em busca de nada para ele. Depois ninguém mais quis saber do Ruana. Era um inútil. Até lhe faltavam dois dedos na mão direita e um era o que já nem apontava coisa nenhuma. Mesmo inútil ia todos os dias á praia apanhar conquilhas e como andava sempre descalço era só chegar à areia e começar com os pés a agitá-la para fazer vir à superfície mãos cheias delas que ia metendo no seu cestinho de cana, redondo e amarelo com brilhos de mar e sol, para depois as vender à porta da praça.&lt;br /&gt;Por cinquenta centavos enchia quatro medidas e toda a gente lhe chamava gatuno !&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113104036616087812?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113104036616087812/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113104036616087812' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113104036616087812'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113104036616087812'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/11/conto-iv.html' title='CONTO IV'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113088389443487610</id><published>2005-11-01T22:23:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:57.644Z</updated><title type='text'>Memória  I</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/IMG_1983.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/IMG_1983.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Ondula na paisagem o corpo de um fragmento de paixão&lt;br /&gt;Será que vi ?&lt;br /&gt;Texturas de uma casa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite o clarão da fechadura incendiada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não passam guias&lt;br /&gt;apenas isolados seres teletransportados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Orlando dança encantamentos de uma madrugada&lt;br /&gt;submersa nas horas atrasadas&lt;br /&gt;Na frente da multidão TU&lt;br /&gt;Será que vi ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O abismo servido por meses dourados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A água em cascata formando uma porta fechada&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Ams 1994/1995&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113088389443487610?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113088389443487610/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113088389443487610' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113088389443487610'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113088389443487610'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/11/memria-i.html' title='Memória  I'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113079984801228346</id><published>2005-10-31T22:58:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:57.567Z</updated><title type='text'>CONTO III</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-3.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/320/image0-3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Sentado no poial o pai do marquês continuou :&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Em Venda Nova havia cinco bêbados profissionais, verdadeiros amadores de uma vida incerta, que serviam de exemplos que não deviam ser seguidos ou de ameaças de futuros, como era o meu caso.&lt;br /&gt;Quando se falava de alcoolismo e dos vários inconvenientes logo surgiam essas figuras como as suas mais graves consequências e esqueciam-se os outros, os que maltratavam as mulheres e os filhos sob a aparência de uma legitimidade que no fim também não era respeitada.&lt;br /&gt;Zé Melão, Arturinho, Paneiro, Ruana e Ratinho não tinham profissão. Não recebiam rendas. Não pagavam impostos. Viviam porque viviam. Eram uns párias que as pessoas acabaram por aceitar como se tivessem sido enviados por um destino que se impusera, independente da vontade das pessoas. Para serem os desgraçados dos outros, daqueles que, se tinham as próprias desgraças, não as tinham suficientemente, ou naquelas medidas sem medidas.&lt;br /&gt;Toda a gente afirmava que eles eram uns infelizes mas ninguém fazia nada para o evitar. Todos sabiam que há um destino que faz com que as pessoas sejam o que são e não o que se pretende que sejam.&lt;br /&gt;Meu pai ameaçara-me com um futuro idêntico ao Paneiro ou ao Arturinho, mas eu não poderia nunca ser qualquer deles. Poderia ser melhor ou pior, segundo a opinião de cada pessoa que me comparasse ou poderia até não ser nada.&lt;br /&gt;Aos catorze anos não era ainda ninguém nem tinha a certeza de o poder vir a ser.&lt;br /&gt;Zé Melão talvez já não pudesse ser mais nada do que aquilo que era, se era alguma coisa para os outros ou para si. Era um velho. Andava sempre dobrado pela cintura como se quisesse apanhar o chão com as pontas dos dedos e apenas os olhos se levantavam um pouco para ver o mundo à distância e o céu misturado com a linha do horizonte. Uma doença qualquer deixara-o assim, incapaz de trabalhar, e só fazia alguns recados arrastando o corpo e atirando os braços em movimentos que pareciam desenhos caídos no chão e que ele procurava apanhar em cada passo.&lt;br /&gt;Não tinha família nem parentes que se conhecessem a quem se pudesse atribuir culpas do seu abandono.&lt;br /&gt;O nosso professor de instrução primária, o senhor Figueirinha, quando nos ensinava geometria dizia-nos que o Zé Melão era um caso agudo do ângulo recto por que as pernas dele formavam com o tronco um ângulo de noventa graus. E acrescentava com um sorriso especial que havia muitas pessoas que se dobravam mais ainda do que o Zé Melão e que eram casos agudos de muitas coisas obtusas e que não confundíssemos. E explicava ainda muito mais coisas que não compreendíamos e que ele dizia não ter importância por não serem do programa.&lt;br /&gt;O senhor Figueirinha também ia todos os dias, depois das aulas, para as tabernas e quando voltava para casa ia sempre ziguezagueando porque a estrada era estreita e irregular e ninguém dizia que ele era bêbado ou tinha estado nas mesmas tabernas onde estavam os outros que eram desgraçados. As pessoas mais velhas só diziam “em que estado vai o senhor professor ! “ ou “ benza-o Deus “ é uma pena, é tão bom professor ", mas não riam, nem faziam coisa nenhuma. Apenas viravam a cara para o lado, com vergonha.&lt;br /&gt;Se ele encontrava os seus alunos punha-lhes a mão, com muita ternura, sobre o ombro, umas vezes mais leve outras vezes mais pesada, e conversava com eles coisas muito bonitas sobre a vida e chamava-lhes “ meus filhos “. Depois ia-se embora pela estrada irregular dizendo entre dentes " isto é tudo uma merda ". Eu, por mim, fazia que não ouvia para não ter vergonha.&lt;br /&gt;Quando o senhor professor morreu foi tanta gente ao funeral que até parecia uma festa sem foguetes. Todos diziam que ele tinha sido um grande professor porque todos tinham já esquecido os puxões de orelhas e as reguadas que dera com toda a força da sua severidade .Tinha eu dez anos aquando da sua morte e continuava a vê-lo, com á candidez dos meus anos, aos tombos na rua irregular e estreita, dizendo palavras doces aos alunos e os palavrões que empregava como se estivesse sóbrio para esbofetear a vida com o seu sorriso misterioso nos lábios. Talvez que só eu e as outras crianças o vissem assim vivo e igual a si próprio e não como ele estava agora, parado para sempre, dentro do caixão onde as pessoas punham flores de ser costume em casos daqueles sem remédio, com as suas caras de olhar bem para a frente, cerimoniosamente, olhos da vida nos olhos da morte, dignamente, por que o professor não ia na rua aos tombos envergonhando as pessoas decentes. Estava morto para sempre com aquela cara de já não querer saber mais da vida dos outros. De querer saber só da sua morte. " Era um grande professor " , todos diziam. E mesmo todo estendido eu via que ele não media mais de um metro e sessenta centímetros&lt;br /&gt;Já tinha morrido há bastante tempo mas lembrava-me dele porque era tão bêbado como o Zé Melão. Ou como os outros. O Arturinho era baixo, velho e bêbado , andava quase sempre a cair, mas mantinha o seu ar de distinção. Como se fosse um fidalgo decente de famílias ricas e finas a quem tivessem tirado tudo, menos a vida.&lt;br /&gt;Apareceu em Venda Nova sem ninguém saber donde viera e a sua vida foi sempre um mistério até toda a gente saber que ele era apenas uma pessoa sem importância para ninguém, nem para si. Trouxera um carrinho de mão que tinha uma roda maior que as de todos os carrinhos já existentes em Venda Nova e o sítio onde punha as mãos estava tão polido que até brilhava ao sol ou às estrelas. O carrinho tinha dois buracos redondos, um maior do que o outro, que serviam para meter neles os cântaros de água, de barro vermelho com riscas branco acinzentadas.&lt;br /&gt;Não havia água canalizada e toda a gente utilizava a dos poços, de vários sabores e qualidades, fresca de arrepiar os dentes à saída do ventre da terra. As tabernas eram, habitualmente, abastecidas pelos cinco bêbados profissionais que se serviam, regra geral, do carro do Arturinho. Evitavam assim terem de alombar com os cântaros pesados e incómodos e de ficarem molhados como pintos com os solavancos da caminhada.&lt;br /&gt;Como o poço da Canilha ficava a um quilómetro da vila todos se davam bem com o Arturinho embora não se entendessem entre si.&lt;br /&gt;O Paneiro era natural da Venda Nova, nascido e criado, e o caso típico de filho família que degenerou. Que saiu da senda do dever e das tradições familiares para se entregar, de olhos fechados, à má vida.&lt;br /&gt;Toda a gente o censurava pelo seu pouco tino e ruim cabeça.&lt;br /&gt;Era filho de Manel Paneiro e fora criado com extremosos carinhos por sua mãe, senhora doente que acabou seus dias entrevada, metida na cama, sem ter ninguém que lhe chegasse ao pé, como era habitual nessa época entre pessoas virtuosas e muito bem vistas.&lt;br /&gt;O século vinte das civilizações aplicadas tinha começado há poucos anos e tinha os erros da sua pouca idade reflectidos nas pessoas.&lt;br /&gt;O Paneiro tinha sido marinheiro graduado e quando aparecia em Venda Nova com o seu fato muito branco, como espuma de ondas, toda a gente o invejava. Tinha viajado muito, conhecia as sete partes do mundo, e sabia contar histórias que ninguém tinha ouvido antes. Parecia um doutor formado em histórias de terras e gentes diferentes e as pessoas juntavam-se à sua volta para o ouvir. Da boca dele as palavras saiam luzindo claridades para explicarem os mistérios da China e os exotismos das Índias. As descrições fantásticas dos batuques africanos com fogueiras ardendo sempre para que as sombras também bailassem nos nossos ouvidos pasmados. Com as magias das peles de cobre e bronze emitindo revérberos como estátuas molhadas.&lt;br /&gt;O pai dele vendia panos. Para vestidos, fatos e lençóis. De porta em porta, pelas casas mais afastadas e por lá andava com a sua mercadoria carregando a carroça pintada de azul e branco puxada por uma mula vestida de castanho velho, durante oito dias ou mais, dormindo nos palheiros ou ao relento, consoante o tempo, as necessidades ou as oportunidades. Levava uma vida tão arrastada, um viver tão vagabundo e incerto que o próprio filho não gostava muito que lhe falassem no pai. Como se fosse desonroso para ele, marinheiro de branco graduado de promoções diversas, corrido e viajado pelas mais remotas paragens do mundo, que em Venda Nova existisse um velho a quem toda a gente chamava Manuel Paneiro. E dizia alto e bom som que se chamava João de Albuquerque Morgado e que nada tinha a ver com a alcunha do pai.&lt;br /&gt;- Eu tinha de ter um pai - esclarecia.&lt;br /&gt;Um dia saiu ao Manuel Paneiro o primeiro prémio da lotaria e toda a gente que anda preocupada com a vida dos outros para esquecer a própria começou a dizer que ele estava rico, podre de rico, embora continuasse a vender panos e a afirmar que o que lhe tinha saído era apenas uma ajudinha para tratar da mulher.&lt;br /&gt;- É uma pessoa muito doente e faço muitas despesas com ela - lamentava-se.&lt;br /&gt;Ninguém acreditava. Nem o filho que supôs estar o pai a ocultar, por uma questão de sovinice, a fortuna que os caprichos da sorte tinham posto nas mãos.&lt;br /&gt;Saiu da Marinha sem dar ouvidos aos bons conselhos impeditivos da sua atitude.&lt;br /&gt;- Deixa-te estar, meu filho, que a vida cá fora é muito difícel e ingrata .&lt;br /&gt;- O pai não tem vivido sempre ?&lt;br /&gt;- Deus sabe com quantas dificuldades.&lt;br /&gt;- Venho ajudá-lo. O pai começa a estar velho e já não dá conta do recado.&lt;br /&gt;- O negócio não dá nada, João. Tu, na Marinha, daqui a uns anos tens direito à reforma. Podes ser um grande senhor.&lt;br /&gt;- Faltam-me ainda oito anos.&lt;br /&gt;- O tempo passa depressa.&lt;br /&gt;E foi por isso que apareceu em Venda Nova trajado à civil. Para ficar, definitivamente.&lt;br /&gt;Toda a gente pensou, então, que o negócio dos panos iria ser aumentado pois o João sabia tantas coisas que delas tiraria proveito para se tornar num rico industrial até. Mas tal não sucedeu porque ele não fazia outra coisa do que andar pelas tabernas contando as mesmas histórias de sempre. Bebendo e pagando copos de vinho aos que o ouviam já sem qualquer interesse que não fosse beber o vinho. Ia sacando do pai o dinheiro que precisava para as despesas e quando o pai lhe impôs que escolhesse vida nova passou a só a aparecer em casa na sua ausência para apanhar da mãe o dinheiro que o pai lhe negava. Ao principio Manuel Paneiro não deixava transparecer nada a não ser os sinais de tristeza que se tinham marcado na sua cara velha e cansada. Se lhe perguntavam pelo filho dizia :&lt;br /&gt;- Fez uma grande asneira em sair da marinha. Os oitenta contos saídos na lotaria já lá vão. E ele não tem futuro. Em 1930 ainda se morria de desgosto e foi nesse ano que o João perdeu, primeiro a mãe, e três meses depois o pai.&lt;br /&gt;Com essas mortes toda a gente ficou com a impressão de que a vida iria ser diferente para o João que, vestido de luto carregado e de barba crescida, mostrava sentimentos dos mais elevados quanto à perda que sofrera. Tomou o negócio do pai e começou a fazer o mesmo percurso. Ia recebendo as contas antigas e encurtando cada vez mais as voltas até ficar definitivamente em Venda Nova, para onde ia logo de manhã com a carroça e o que restava dos panos deixados por seu pai, de modas antigas. E à porta da taberna os vendeu por preços inferiores ao seu custo. Um dia vendeu a carroça e a mula que a puxava por que não se justificava que ficasse com um encargo de tal natureza uma vez que tinha abandonado o negócio.&lt;br /&gt;Daí para a frente passava os dias na taberna, jogando cartas, gastando o tempo o resto do dinheiro e a própria roupa que trazia no corpo. E o próprio corpo que, afinal, não lhe servia para mais nada. Andar aos tombos de uma vida sem eira nem beira. Sem significados. Reduzindo-o apenas ao que era e sempre recusara com a vergonha dos outros. E ficou a ser, para toda a gente, o Paneiro. Com a roupa a ficar em cada dia mais velha e desfeita, mais suja e rota, a aparecerem bocados de pele nova e cabelos como sorrisos dum corpo que já não albergava nem esperanças. A ficar com os pés a saírem-lhe pelos sapatos que mostravam bocas abertas com sorrisos de dedos escarnecendo de todas as sujidades.&lt;br /&gt;Tinha uma maneira muita sua de andar, mesmo quando estava toldado pelo vinho. Ficara com a disciplina de marchar que aprendera na Marinha. Atirava os pés para a frente, depois assentava-os no chão e arrastava-os para trás para evitar tropeçar pois os sapatos estavam despalmilhados e cada vez que levantava os pés do chão a sola ficava virada para baixo como se fosse cair do sapato.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113079984801228346?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113079984801228346/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113079984801228346' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113079984801228346'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113079984801228346'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/10/conto-iii.html' title='CONTO III'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113069509410996815</id><published>2005-10-30T17:16:00.000Z</published><updated>2006-11-09T18:48:57.471Z</updated><title type='text'>Casas</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0.1.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/image0.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;.......&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,&lt;br /&gt;espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos&lt;br /&gt;que não viram as torrentes infindáveis&lt;br /&gt;das rosas, ou as águas permanentes,&lt;br /&gt;ou um sinal de eternidade espalhado nos corações&lt;br /&gt;rápidos.&lt;br /&gt;- Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam&lt;br /&gt;pelos muitos sentidos dos meses,&lt;br /&gt;dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,&lt;br /&gt;para que se faça uma ordem, uma duração,&lt;br /&gt;uma beleza contra a força divina?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.........&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;excerto do poema Prefácio de Herberto Helder&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113069509410996815?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113069509410996815/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113069509410996815' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113069509410996815'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113069509410996815'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/10/casas.html' title='Casas'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-113027826641331444</id><published>2005-10-25T23:06:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:57.300Z</updated><title type='text'>CONTO II</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0-1.1.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/image0-1.1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;E o pai do marquês continuou:&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Aos catorze anos eu não era, ainda, ninguém. Apenas uma criança inocente em suas virgindades. Gordo em suas carnes sadias onde começavam a desenhar-se os músculos e os traços masculinos. Cara rosada como se tivesse sido agredido pela juventude e olhos papudos onde brilhavam esperanças e muitas outras coisas que nem eu sabia, exactamente .&lt;br /&gt;No lábio superior começaram a surgir cabelos negros a ameaçarem-me com um futuro bigode e as patilhas desciam cada vez mais, encostadas às orelhas, com o rumo do pescoço.&lt;br /&gt;Estávamos em Julho e tinha regressado a casa depois de ter reprovado, com o maior êxito, no segundo ano do liceu.&lt;br /&gt;Iria fazer, dai a meses, os quinze anos, se meu pai não me tirasse a pele, como dissera, logo no principio do ano escolar.&lt;br /&gt;- Andas à boa vida mas eu tiro-te a pele se chumbares outra vez !&lt;br /&gt;Pela ordem de ideias do meu aproveitamento escolar já seria a segunda pele a extrair de mim se ma tivesse tirado da primeira vez. Para fazer face à minha aplicação o melhor seria, para mim, possuir um bem fornecido stock de peles.&lt;br /&gt;Minha mãe, quando cheguei a casa e lhe dei a noticia com o sorriso de pessoa a sentir-se esfolada, ficou muito preocupada e disse:&lt;br /&gt;- E agora o que vais dizer ao teu pai ?&lt;br /&gt;Isso também eu não sabia exactamente, mas respondi :&lt;br /&gt;- As coisas correram-me mal...&lt;br /&gt;- Eu nem o quero ouvir.&lt;br /&gt;- Não se preocupe, mamã, que o problema é meu.&lt;br /&gt;- Pois é ! Mas o teu pai diz sempre que eu é que tenho a culpa. Eu nem o quero ouvir !&lt;br /&gt;E num desabafo, com as mãos postas na cabeça disse :&lt;br /&gt;- Estes moços só me dão dores de cabeça !&lt;br /&gt;Tive pena das dores que minha mãe sofria por mim. Depois pensei que ela estava a lavar as suas mãos, como Pilatos. Sabia que teria de me defrontar sozinho com o meu pai, como era costume, pois, como toda a gente que tem mãos e as lava, ela ainda tinha mais medo dele do que ninguém.&lt;br /&gt;Resolvi encarar a realidade de frente, admitindo que ela tinha lados, e fui à procura de meu pai que andava junto dos trabalhadores, na horta. Cavavam o terreno onde se plantariam as batatas doces.&lt;br /&gt;Se ele me batesse desalmadamente o Ceroilas, o Babão ou o Cagatilhos, me tirariam de suas mãos e evitariam, certamente, um crime desnecessário, ou um esfolamento a frio com requintes de malvadez e de vinganças para liquidação das minhas faltas.&lt;br /&gt;Quando cheguei junto de meu pai e disse “ Bons dias “ os trabalhadores responderam à minha saudação e isso deu-me uma certa satisfação embora o meu pai tivesse ficado calado, a aguardar que acabassem as delicadezas, para me interpelar:&lt;br /&gt;- Então, o que me dizes ?&lt;br /&gt;- Tive azar.... - disse eu, quase sem me ouvir e a tremer por dentro com medos vagabundos a percorrerem às cegas o miolo do que eu era.&lt;br /&gt;- Tiveste o quê ? Explica lá isso melhor.&lt;br /&gt;- Correrram-me mal as coisas. . .&lt;br /&gt;- Correram-te mal ?&lt;br /&gt;- Sim, senhor.&lt;br /&gt;Como meu pai tivesse ficado calado achei-me na obrigação de lhe explicar o que tinha corrido mal e disse :&lt;br /&gt;- Esperava que o professor de francês me desse nota para passar e não deu...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Estava a impingir a injustiça do professor para justificação do meu fracasso.&lt;br /&gt;- Mas tu andas a estudar ou a pedir ?&lt;br /&gt;- A estudar. . . - disse eu a ver ruir a esperança de me defender com a incompreensão ou a incapacidade dos outros.&lt;br /&gt;- Não me parece. Andaste todo o ano a polir as calçadas de Faro. Não foi isso ?&lt;br /&gt;- Eu estudei . . . .&lt;br /&gt;- A continuares assim vais ter um futuro lindo - disse meu pai com seus ares de muitas dúvidas no meu futuro. - Hás-de ser outro Paneiro. . . ou um Arturinho.&lt;br /&gt;Primeiro fiquei estarrecido com a profecia de meu pai para o meu futuro de quedas nas desgraças dos outros, depois fiquei danado.&lt;br /&gt;Esperava que meu pai me batesse com todas as suas fúrias capazes de me tirarem a pele das suas promessas, esperava que me desse uma bofetada que modificasse o lugar das coisas na minha cara, esperava que me dissesse que depois faria contas comigo, mas não esperava que me comparasse com párias que não tinham eira nem beira, que não tinham a consideração de ninguém e a quem também ninguém considerava.&lt;br /&gt;Eu tinha pai e mãe. Irmãos e irmãs. Uma família mais que completa constituida com todos os preceitos legais. O Paneiro ou o Arturinho não tinham ninguém.&lt;br /&gt;Eu era filho dum homem rico. Andava a estudar em Faro com outros meninos ricos e bem vestidos. As responsabilidades da minha educação e dos meus estudos recaíam sobre os meus pais pois que para isso é que os tinha.&lt;br /&gt;Admitia que meu pai me batesse como tinha prometido no principio do ano, mas não podia admitir que ele me profetizasse um futuro igual a quem não tinha futuro nenhum como esses desgraçados que meu pai dissera. E do Zé Melão, do Ruana e do Ratinho, que estavam presos a um destino a que não podiam fugir ou que talvez não quisessem fugir.&lt;br /&gt;Eles eram para mim as maiores e as mais interessantes personalidades e se eu pudesse queria ser toda a vida como eles. Mas não gostava mesmo nada que meu pai me ameaçasse com o futuro da desgraça dos outros.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-113027826641331444?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/113027826641331444/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=113027826641331444' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113027826641331444'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/113027826641331444'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/10/conto-ii.html' title='CONTO II'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112973750570417471</id><published>2005-10-19T17:43:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:57.212Z</updated><title type='text'>O Baile</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O José João ainda era da família dos Calça Linda.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Lembro-me sobretudo da projecção da voz da mãe dele, que se podia ouvir a perto de 1 quilómetro de distância, quando o chamava para casa, sempre que necessário.&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family:verdana;font-size:180%;color:#cc0000;"&gt;Ó ZÉ JO&lt;/span&gt;....... &lt;span style="font-family:verdana;font-size:180%;color:#cc0000;"&gt;ÃOOOOOOOOOOOOOOO&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O Zé João acabou por emigrar para a Alemanha o que calou a mãe.&lt;br /&gt;Com a irmã do Zé João o marquês foi ao baile da Maia que ocorria todo 1º de Maio na corte do António Martins. A Maia era uma adolescente distinguida pela comunidade para preencher o altar da provocação durante o 1º de Maio. O mais frequente era os rapazes oferecerem-lhe rebuçados que ela amávelmente recusava com ar indiferente, enquanto um tocador de acordeão fornecia a melodia que arrastava os pés de jovens, eróricamente estimulados pela luz do &lt;em&gt;petromax&lt;/em&gt; que suavemente se ia esgotando, até os corpos estarem tão juntos que o suor se fundia e a música abrandava. Era então que, próximo do orgasmo, apressadamente alguém, dos mais velhos, bombava uma intensidade maior no &lt;em&gt;petromax&lt;/em&gt; e os corpos voltavam à distância da conveniência pública ao som acelerado do acordeão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112973750570417471?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112973750570417471/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112973750570417471' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112973750570417471'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112973750570417471'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/10/o-baile.html' title='O Baile'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112958498268452252</id><published>2005-10-17T22:07:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:57.128Z</updated><title type='text'>CONTO I</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/image0.3.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/400/image0.2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Numa noite de luar o avô do marquês disse-lhe: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Mais tarde o teu pai vai-te pedir que registes : &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Uma trombose varrera em Venâncio Figueira, meu pai, a vontade. Apenas lhe deixara nos lábios um esgar trocista para todos e que, a minha mãe, parecia um sorriso de compreensão complacente. Ficou assim durante oito dias, a rir para minha mãe que, consciente do estado desesperado de meu pai, ocupava o seu tempo de tragédia e desespero, chorando. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Meu pai morreu a rir, ao cair da noite. Minha mãe, com os soluços a rasgarem-lhe o pranto e a afogarem-lhe a voz, dramaticamente, disse num grito : &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Que desgraça a minha! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Dentro da urna de mogno, primeira classe, destapada, meu pai olhava para cima com os seus olhos apagados de raivas ou de lembranças recordadas pelos vivos. Com o mesmo sorriso nos lábios. Com o seu nariz , hebraico grande e pesado, afilado pelos dedos cegos da morte, apontando os rumos da eternidade. Dos outros. Das recompensas e dos castigos. Dos outros. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;No ar o cheiro enjoativo da cera derretida a levar aos narizes dos vivos a consciência da morte. Se meu pai ainda estivesse vivo, irreverente como era, teria dito : &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Apaguem lá essa merda ! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Nenhum dos filhos herdara dele a coragem. Levara-a consigo para apodrecer dentro do seu corpo. A Clotilde Calça Linda, com um algodão muito branco embebido de álcool, caçava na testa e no nariz os piolhos que fugiam apavorados do cabelo e da barba e iam para a liberdade da pele como ultrajes às dignidades da família do morto. Pacientemente ia desafrontando a honra piolhosa dos Figueiras colocando os piolhos capturados, com uma sacudidela definitiva, dentro de uma tigela de bordos dourados onde ficavam a boiar no álcool.. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Era a tigela dele - disse minha mãe com um lamento suspirado. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Até os pobres bichos , coitados, têm medo da morte disse o Babão a tentar, com os dedos pesados da mão direita, apagar a comichão persistente no alto da cabeça. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Meu pai deixara cinco filhos e todos estavam presentes. Até meu irmão Natal de Jesus viera. Tinha sido banido da família como ovelha ranhosa que nunca fora capaz de pertencer ao rebanho dos Figueiras. Meu pai tinha-o deserdado e minha mãe concordara com ele. Era nosso irmão mas era diferente de nós. Vivia, ilegalmente, com uma mulher qualquer sem árvores para o futuro e com desgraças no passado, e o conhecimento público de tal atitude virara contra si a ira dos pais e o desprezo dos irmãos. Mas não faltara ao funeral do pai. Acompanhado da mulher com quem vivia, a seu modo. Sereno. Mudo de sentimentos e de palavras. Presente porque se sentia filho do homem que o banira por conceitos enraizados nas pessoas. Talvez esse meu irmão tivesse tanta coragem como meu pai e nunca precisasse de a dizer a ninguém. A sua atitude não teria sido uma prova evidente da sua coragem ? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Minha irmã Rosália confortava o melhor que podia minha mãe. Meu irmão Luís estava demasiado velho para os seus cinquenta e dois anos. O tempo agredira-o severamente. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Minha irmã Clara era ainda uma linda mulher com os seus quarenta e dois anos não obstante alguns cabelos prateados.Os meus cunhados andavam dum lado para o outro nervosos, impacientes, desejando talvez que o funeral se realizasse depressa por que tinham de ir tratar da vida.&lt;br /&gt;Salvo meu irmão Natal de Jesus todos me pareceram, nessa altura do meu pensamento, cães que conseguiram lançar os dentes a uma peça de roupa e que acabarão por esfarrapar com raivas velhas. Mentalmente procurava averiguar a qualidade dos meus dentes e a força que teria de pôr neles.&lt;br /&gt;Afinal, estavam ali, a rodear o cadáver de Venâncio Figueira os anjos do passado que se tornaram em abutres do presente. À espera de devorarem uma fera de 1930.&lt;br /&gt;Como se tinham modificado tão profundamente as crianças que eu conhecera !&lt;br /&gt;Como eram diferentes as realidades dos sonhos que tinham sido sonhados, um dia e outro, em voz alta, por todos os que estavam agora, com os sentimentos dos outros, rodeando o cadáver dum homem que tanto assustara as crianças indecisas que nós éramos !&lt;br /&gt;O que o tempo fez !&lt;br /&gt;De vez em quando aparecia uma nova pessoa, das antigas nas tragédias vividas, para dar os pêsames à família.&lt;br /&gt;Minha mãe chorava a perda inconsolável de metade do seu destino e meus irmãos com a cara adequada aos sentimentos dos outros respondiam com mentiras às mentiras das palavras confortadoras. O único que se mantinha digno, sem indícios de dores ou de prazeres, era meu irmão Natal. Apenas dava a sua presença sem outros encargos.&lt;br /&gt;O Babão arrastava as pernas trôpegas e cansadas dum corpo sem reforma. Tinha ido ali para sofrer também as dores da família, por fora, sentindo por dentro, talvez, o prazer de uma vingança realizada pelo destino.&lt;br /&gt;- No fundo não era mau homem - afirmou o Babão com as palavras arrastadas do seu cansaço.&lt;br /&gt;A realidade era outra e ninguém tinha coragem de a afirmar.&lt;br /&gt;Ninguém conseguira ver o fundo de meu pai para se certificar se era realmente bom esse fundo afirmado com tanta convicção pelo Babão. Afirmado pelo Ceroilas. Afirmado pelos vivos que ali tinham ido dar uma última mirada a um homem que nada mais fizera do que contribuir para a humilde condição de trabalhadores sem regalias. Sem outras esperanças na vida do que terem um dia para a morte.&lt;br /&gt;- É o que nos espera a todos - disse o Ceroilas.&lt;br /&gt;Todos os que morreram antes de meu pai teriam negado, como sempre o fizeram, aliás, as palavras dos vivos com obrigações para os outros vivos, perante um homem duro que tanto os fizera sofrer. Que estava, agora, imóvel, iniciando a decomposição do corpo onde estivera alojada, durante setenta e cinco anos uma força geradora de frustrações e desânimos, de fomes e misérias, de desesperos e tragédias, nos corpos e nas almas daqueles que o serviram.&lt;br /&gt;Que ainda tinham uma lágrima mentirosa com força suficiente para riscar na cara destinos iguais a todas as outras choradas !&lt;br /&gt;O tempo tinha mudado tudo. Especialmente as pessoas. Tinha modificado profundamente as crianças que eu conhecera. Se eu não soubesse que tinhamos sido irmãos teria negado ali, junto à urna de meu pai, todas as fraternidades que um acaso determinara.&lt;br /&gt;Como tudo era diferente dos meus recuados catorze anos !&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112958498268452252?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112958498268452252/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112958498268452252' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112958498268452252'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112958498268452252'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/10/conto-i.html' title='CONTO I'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112843503783837206</id><published>2005-10-04T13:28:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:57.016Z</updated><title type='text'>Outubro</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Cacela era o nosso desejo de férias, de estar solto com a natureza. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Durante a alvorada íamos à formiga de asa, armávamos ao pássaro, e corríamos a manhã atrás de pequenos barcos de madeira, inventados a partir de etiquetas de endereçamento de mercadorias, que corriam nos regos de água que o avô do marquês tecia como peças complexas de abastecimento às raízes de laranjeiras e limoeiros.&lt;br /&gt;Quando, vindos de Lisboa, passávamos a ribeira do Vascão, que nos dava acesso a esse sonho, cantávamos quase sempre: Ai! Ai! Algarve, do céu azul, cantai comigo lindas morenas do sul…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Outubro o regresso era a Lisboa !&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112843503783837206?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112843503783837206/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112843503783837206' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112843503783837206'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112843503783837206'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/10/outubro.html' title='Outubro'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112687534523277959</id><published>2005-09-16T13:42:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:56.944Z</updated><title type='text'>Manta Rota I</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;No casino havia uma juke box com Elvis, Beetles, Shadows, Tom Jones, Monkees, Tony de Matos, Fernando Farinha, Madalena Iglésias, Simone de Oliveira, António Calvário e outros.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112687534523277959?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112687534523277959/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112687534523277959' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112687534523277959'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112687534523277959'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/09/manta-rota-i.html' title='Manta Rota I'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112673538803427971</id><published>2005-09-14T22:57:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:56.843Z</updated><title type='text'>Setembro</title><content type='html'>Em Setembro ia-se à terra para os vasos e cabiamos nús nos troncos das oliveiras anciãs. Eram miúdos, o marquês e ela, uma miúda de corpo sonhado e suado nas noites em que se procuravam.&lt;br /&gt;No próximo verão ela já não existiria naquele lugar, nem mais um corpo caberia no tronco das oliveiras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112673538803427971?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112673538803427971/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112673538803427971' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112673538803427971'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112673538803427971'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/09/setembro.html' title='Setembro'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112610705438730238</id><published>2005-09-07T15:49:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:56.737Z</updated><title type='text'>Santa Rita I</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Chegava a Santa Rita na pasteleira, comprada pelos tios maternos do marquês para recompensar a passagem na 4 ª classe, aptidão aos liceus e escola comercial. Porque na altura se esperava que o marquês se desenvolvesse mais em altura, a pasteleira foi também oferecida como recompensa pela conclusão do ciclo complementar dos liceus e de aptidão à universidade. Nesta altura, em que o marquês tinha 10 anos e os miúdos da marcela e santa rita começavam já a pensar em trabalhar, apresentar um futuro de estudo e educação merecia uma pasteleira das grandes. E era com esta pasteleira que o benfica e o marquês percorriam os dias.&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 263px; CURSOR: hand; HEIGHT: 242px" height="347" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/320/Digitalizar00031.jpg" width="398" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Santa Rita era uma pequena capela e um casario ao redor. Era também a olaria que ia escavando o cerro dos barros. Não longe estava a escola onde a mãe do marquês tinha ensinado a ler alguns dos meninos de cacela e santa rita. Mas a escola acabou por ser substituída pela do centenário e apenas as ferragens que suportavam o pau da bandeira, assinalavam a presença do passado. Para o marquês santa rita era quase uma padroeira privada, nada que tivesse a ver com o culto social de outros santos mais falados. Por essa altura pensaria que escolher um santo menos solicitado traria vantagens de proximidade e de disponibilidade para o apoio que lhe fosse encomendado e por outro lado seria um favor feito ao santo ser seu sequaz...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112610705438730238?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112610705438730238/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112610705438730238' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112610705438730238'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112610705438730238'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/09/santa-rita-i.html' title='Santa Rita I'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112432432010562242</id><published>2005-08-18T01:18:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:56.475Z</updated><title type='text'>O Colégio I</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/img/96/6258/1024/IMG_2037.jpg"&gt;&lt;img class="phostImg" src="http://photos1.blogger.com/img/96/6258/400/IMG_2037.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O colégio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois da primária seguia-se o 1º ciclo dos liceus. O colégio &lt;strong&gt;O Externato Académico&lt;/strong&gt; era a única escola que se podia frequentar até ao 3º ciclo e daí seguir para a universidade. Como todos os colégios era caro e frequentado pelo melhor social. Uma notável época e paisagem rodeavam o colégio. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Costa era o marido da DrªIrene, mulher bonita e escultural, também professora de portugês e linguas, exceptuando as mortas, latim e grego, que eram dadas pela Libitina, uma pós -moderna prematura, de vida privada bem guardada e desconhecida num bairro de Lisboa, onde se dizia residiria com a mãe. A Libitina andava sempre de preto como viúva solteira. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nessa época já o Costa andava de sobretudo, arrastando uma idade superior à da Drª Irene, pelo que nós, os rapazes, achavamos pouco provável que, à noite, chegasse  para ela. O Costa tomava conta da disciplina, do processamento dos recibos mensais e dos processos burocráticos de secretaria relativos aos alunos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A D. Leonor era a responsável pelo refeitório e pela limpeza e organização das rotinas relativas à manutenção de salas, materiais e quartos existentes no sotão de internato dos alunos residentes e provenientes sobretudo de Lagos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112432432010562242?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112432432010562242/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112432432010562242' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112432432010562242'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112432432010562242'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/08/o-colgio-i.html' title='O Colégio I'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112359088109504217</id><published>2005-08-09T13:33:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:56.402Z</updated><title type='text'>Chegada</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/Digitalizar0001.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/320/Digitalizar0001.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Quando chegavamos escolhia-se o melhor frango...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cacela, 1972&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112359088109504217?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112359088109504217/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112359088109504217' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112359088109504217'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112359088109504217'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/08/chegada_09.html' title='Chegada'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112249152789647578</id><published>2005-07-27T19:46:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:56.122Z</updated><title type='text'>Os carros do avô do marquês</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/Os%20carros%20do%20av??.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/Os%20carros%20do%20av??.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/320/Os%20carros%20do%20av%3F%3F.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Histórias de quem andava pelas veredas distribuindo água fresca em cântaros de barro, no reino de cacela, das moiras encatadas, lá para os lados do barrocal, quase a chegar a santa rita e  do cerro dos barros.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Histórias de tesouros escondidos em túneis escavados, sacados pelas raízes das árvores e contados pelos seus ramos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112249152789647578?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112249152789647578/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112249152789647578' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112249152789647578'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112249152789647578'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/07/os-carros-do-av-do-marqus.html' title='Os carros do avô do marquês'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112189642399460904</id><published>2005-07-20T22:51:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:56.050Z</updated><title type='text'>O coxo I</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O coxo possuia uma notável capacidade de observação dos acontecimentos no dobrar daquele muro. Podia passar várias horas a observar, quase invisível, sem dizer palavra e soltar as observações irónicamente trabalhadas, quando o vinho do domingo e as cartas do bicho não lhe saíam a favor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os domingos na Marcela eram dias de malha e bicho. O chá de camomila era substituido pelo escorrer do vinho na garganta dos homens, fins de tarde em voz alta e caminhos tortos. Ligeiramente afastados, os miúdos ensaiavam os jogos dos homens, copiando gestos, palavras, batotas e iras.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112189642399460904?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112189642399460904/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112189642399460904' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112189642399460904'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112189642399460904'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/07/o-coxo-i.html' title='O coxo I'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112179403847799256</id><published>2005-07-19T18:21:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:55.962Z</updated><title type='text'>Os títeres e os saltimbancos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/1600/IMG_16401.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 285px; CURSOR: hand; HEIGHT: 202px; TEXT-ALIGN: center" height="279" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4679/601/320/IMG_1640.jpg" width="500" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Nunca os vi - os títeres . Passavam na Marcela por altura em que me encontrava noutro reino. Idealizava-os como bobos da corte, cuspidores de fogo e magos que atravessam o tempo, ensaistas da diversão e ilusão, criadores do sonho dos caminhantes e acompanhantes de macacos, cães, gatos e ratos da india, todos amestrados. Os títeres cresceram comigo como druídas das veredas, expirados pelo sopro de mágica luz trespassada pelo cristalino. Diferentes, os saltimbancos eram destros nos movimentos de corpo, lançado em bailados acrobáticos, coreografias desconstrutivistas e politica versátil. Do corpo cuja projecção ultrapassaria os contornos da proximidade, ficando na memória, a evolução de fragmentos de movimentos fantásticos, ao ponto de se tornarem míticos com asas de cera.&lt;br /&gt;Títeres e saltimbancos foram e são uma espécie de sempre deuses em pé, desafiadores dos cismas de cada época. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112179403847799256?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112179403847799256/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112179403847799256' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112179403847799256'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112179403847799256'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/07/os-tteres-e-os-saltimbancos.html' title='Os títeres e os saltimbancos'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112145937676947200</id><published>2005-07-15T21:29:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:55.892Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href='http://photos1.blogger.com/img/96/6258/1024/image0.jpg'&gt;&lt;img border='0' class='phostImg' src='http://photos1.blogger.com/img/96/6258/400/image0.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Em cacela eramos felizes durante 3 meses&amp;nbsp;&lt;a href='http://picasa.google.com/' target='ext'&gt;&lt;img src='http://photos1.blogger.com/pbp.gif' alt='Posted by Picasa' border='0' style='border:0px;padding:0px;background:transparent;' align='absmiddle'&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112145937676947200?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112145937676947200/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112145937676947200' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112145937676947200'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112145937676947200'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/07/em-cacela-eramos-felizes-durante-3.html' title=''/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112135501529291320</id><published>2005-07-14T15:06:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:55.818Z</updated><title type='text'>O galo de barcelos</title><content type='html'>O galo de barcelos apareceu no castelo como símbolo da virilidade nacional, numa época em que se convivia também com a bandeira, o hino nacional, as andorinhas de louça, a ferradura e as espigas colhidas no seu dia  . Ao contrário dos outros símbolos nacionais, o galo de barcelos podia adquirir vários aspectos, desde que fosse mantida a crista irta e bem marcada. Era altivo este galo, numa  aristocrática maneira de o ser.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112135501529291320?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112135501529291320/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112135501529291320' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112135501529291320'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112135501529291320'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/07/o-galo-de-barcelos_112135501529291320.html' title='O galo de barcelos'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112094186815356241</id><published>2005-07-09T21:44:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:55.534Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href='http://photos1.blogger.com/img/96/6258/640/IMG_1431.jpg'&gt;&lt;img border='0' class='phostImg' src='http://photos1.blogger.com/img/96/6258/320/IMG_1431.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;o galo de barcelos e a saladeira&lt;br /&gt;&lt;span style='font-size: 8pt;'&gt;ams&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112094186815356241?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112094186815356241/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112094186815356241' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112094186815356241'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112094186815356241'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/07/o-galo-de-barcelos-e-saladeiraams.html' title=''/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112084535352724001</id><published>2005-07-08T18:55:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:55.429Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href='http://photos1.blogger.com/img/96/6258/1024/Scan00131.jpg'&gt;&lt;img border='0' class='phostImg' src='http://photos1.blogger.com/img/96/6258/400/Scan00131.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;1961&lt;br /&gt;&lt;span style='font-size: 8pt;'&gt;ams&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112084535352724001?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112084535352724001/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112084535352724001' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112084535352724001'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112084535352724001'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/07/1961ams.html' title=''/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112077636463829776</id><published>2005-07-07T23:46:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:55.283Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href='http://photos1.blogger.com/img/96/6258/640/IMG_14401.jpg'&gt;&lt;img border='0' class='phostImg' src='http://photos1.blogger.com/img/96/6258/320/IMG_14401.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;o ferro e os cavalinhos &lt;br /&gt;&lt;span style='font-size: 8pt;'&gt;ams&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112077636463829776?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112077636463829776/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112077636463829776' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112077636463829776'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112077636463829776'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/07/o-ferro-e-os-cavalinhos-ams.html' title=''/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-112006255970528180</id><published>2005-06-29T17:26:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:55.042Z</updated><title type='text'>O relógio</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Em casa do avô paterno do marquês o relógio dava as horas que entendia porque a linha do comboio ficava afastada, não se entendendo o sentido arbitrário com que as assumia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inicialmente encontrava-se na prateleira, logo por cima do lavatório que ficava num dos cantos de fundo da casa de jantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, num dos verões em que o fiz funcionar ao comando da minha voz, concertada com movimentos que ia definindo, a sua posição mudou para cima de um grande louceiro que ficava na casa de jantar, parecendo um passáro que, observando as cenas, poderia intervir como árbitro sectário em &lt;em&gt;rounds domésticos&lt;/em&gt;. Para o alcançar era necessário procurar uma cadeira alta que nunca se encontrava por perto. Só um adulto poderia aceder àquele relógio e, mesmo assim, ter-se-ia que esticar bastante para lhe tocar. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-112006255970528180?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/112006255970528180/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=112006255970528180' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112006255970528180'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/112006255970528180'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/06/o-relgio.html' title='O relógio'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-111973493286835861</id><published>2005-06-25T22:23:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:54.959Z</updated><title type='text'>Ars longa</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Quando chegaste partias de um país distante&lt;br /&gt;Dorida&lt;br /&gt;Tocada pelo pássaro em queda a rasgar o azul&lt;br /&gt;Abandonada no interior de uma gaiola de fios de porcelana&lt;br /&gt;Viajavas na folha seca do Outono&lt;br /&gt;e no fumo que procura o princípio da madrugada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pisavas o gelo que flutua na transparência da água&lt;br /&gt;escrevias cartas a um amante que sustentava a ausência&lt;br /&gt;da névoa de lua cheia&lt;br /&gt;Pousavas no vento que alivia a espinha das aves que navegam para Sul&lt;br /&gt;nos polares horizontes&lt;br /&gt;no bico afiado de um lápis de memórias&lt;br /&gt;na estearina Ars longa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;AMS, 1995&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-111973493286835861?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/111973493286835861/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=111973493286835861' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/111973493286835861'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/111973493286835861'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/06/ars-longa.html' title='Ars longa'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-111947819149045788</id><published>2005-06-22T23:06:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:54.855Z</updated><title type='text'>O hotel</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O sitio tinha tanta intensidade, força de ser maior. Talvez por isso a água escorria de cima, sem controlo, para se despenhar nas traseiras do Hotel, num imenso rugido, assustador sempre. Diziam-me que quando chove a vontade de abandonar o lugar é superior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vidros de janelas partidos, colchões ainda moldados pelo corpo do último viajante em camas solitárias. O corredor, um túnel gelado, com janela ao fundo para o infinito medo, a água escorrendo peneda abaixo sem sabermos onde, juntando o som e o medo no interior do edifício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui os gatos chamam-se pantufa e são de netos que não estão. As noites não possuem rectaguarda, são o limite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A jovem loura de ar gentil, fazendo pender ligeiramente a cabeça para um dos lados, ajeita continuamente o cabelo para que este se  mantenha atrás da orelha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Em Castro Laboreiro a tia Amélia tinha uma cabra que ficava em baixo. Um dia subiu, viu-se no louceiro, pensou ser outra cabra, investiu e partiu a louça toda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Faziamos tudo a pé. À noite ficavamos em Lamas e pela manhã continuavamos até à Peneda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nestes dias o azul deixa de se interessar por nós e as madrugadas cheiram a estrume carregado de lágrimas perdidas entre neblinas de solidão.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-111947819149045788?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/111947819149045788/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=111947819149045788' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/111947819149045788'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/111947819149045788'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/06/o-hotel.html' title='O hotel'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-111902531861606456</id><published>2005-06-17T17:19:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:54.766Z</updated><title type='text'>O comboio</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O comboio correio passava quase dentro de casa do José Vicente, avô materno do Marquês. A distância entre o último tijolo e a linha do comboio era a de um pombal e uma oliveira situada no meio do galinheiro. À noite sentia-se melhor o poder da locomotiva. Inicialmente, o correio era o último da noite e o derradeiro acontecimento antes de nos deitarmos, mais tarde, o rápido saído do Barreiro às dezoito e quarenta, passava por volta da uma da noite, desfazendo o sonho ao som de lâmina cortando fio de metal. Olhando para o relógio, José Vicente acertava as horas por um determinado momento desse som, dizendo que o relógio estava atrasado, adiantado ou certo. Hoje estou em crer que o fazia pela análise da aproximação do comboio, da intensidade de pressão da roda metálica sobre o carril, conjudados com o tchu-tchu da locomotiva. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-111902531861606456?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/111902531861606456/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=111902531861606456' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/111902531861606456'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/111902531861606456'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/06/o-comboio.html' title='O comboio'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-111835381411498858</id><published>2005-06-09T22:48:00.001+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:54.645Z</updated><title type='text'>O Coxo</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O coxo era  Cotovio de apelido e sapateiro de profissão. Morava na Caina a cerca de 80 metros da Marcela, por vereda cavada entre pequenas  hortas e pomares. Pequenos lugares tinham grandes nomes, a Marcela por causa das camomilas, a Caiana por causa da matilha de cães e outros nomes, como Nora e Ponte. O Muro, ficava já a caminho do Estanque e, lá mais para cima, quase na serra, Santa Rita. Depois era como se a civilização tivesse parado e começava a Mata, a floresta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coxo, que era o modo  como todos se referiam ao Cotovio, ficava sentado numa pedra, sobre a sombra de um marmeleiro, na dobra do muro branco. A perna ausente era um rolo de trapos, vestido com a perna da calça, apoiada na muleta em madeira, de ponta revestida a borracha para não resvalar nas pedras das veredas.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-111835381411498858?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/111835381411498858/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=111835381411498858' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/111835381411498858'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/111835381411498858'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/06/o-coxo_09.html' title='O Coxo'/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-111833950122645650</id><published>2005-06-09T18:51:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:54.330Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/img/96/6258/1024/Scan0001.jpg"&gt;&lt;img style="BORDER-RIGHT: #ffffff 1px solid; BORDER-TOP: #ffffff 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #ffffff 1px solid; BORDER-BOTTOM: #ffffff 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/96/6258/320/Scan0001.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;o coxo Cotovio&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:8;"&gt;Posted by &lt;a href="http://www.hello.com/" target="ext"&gt;Hello&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-111833950122645650?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/111833950122645650/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=111833950122645650' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/111833950122645650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/111833950122645650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/06/o-coxo-cotovio-posted-by-hello.html' title=''/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13517747.post-111825138611955824</id><published>2005-06-08T18:23:00.000+01:00</published><updated>2006-11-09T18:48:54.174Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/img/96/6258/1024/Digitalizar00051.jpg"&gt;&lt;img style="BORDER-RIGHT: #aaaaaa 1px solid; BORDER-TOP: #aaaaaa 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #aaaaaa 1px solid; BORDER-BOTTOM: #aaaaaa 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/96/6258/320/Digitalizar00051.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;"&gt;os carros do avô do marquês&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:8;"&gt;Posted by &lt;a href="http://www.hello.com/" target="ext"&gt;Hello&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13517747-111825138611955824?l=casascoisasloucasvelhas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/feeds/111825138611955824/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13517747&amp;postID=111825138611955824' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/111825138611955824'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13517747/posts/default/111825138611955824'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://casascoisasloucasvelhas.blogspot.com/2005/06/os-carros-do-av-do-marqus-posted-by.html' title=''/><author><name>AMS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17459047657760743292</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
